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Eis a grande questão: Como podem existir histórias com finais tão dramáticos?

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637J - Vila São José
Conto

637J - Vila São José

Uma enrolação, tudo dando errado, praticamente um dia péssimo. Mas com alguns poucos degraus percebi hábitos que havia esquecido como eram.

Kelly Hatanaka
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637J - Vila São José
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

- É, dona. Vai precisar trocar a rebimboca da parafuseta. O trequinho que segura o negócio junto da coisa ainda tá bom, mas pelo tempo de uso do seu carro, é bom trocar também. Sabe como é, essas coisas quebram na pior hora.

Ele estava me enrolando. Estava na cara. Mulheres e mecânicos são duas espécies antagônicas que acabaram por encontrar um delicado equilíbrio no ecossistema da selva de pedra: eles fingem que respeitam a gente, a gente finge que confia neles. Fiquei olhando para o motor, fazendo cara de entendida, fingindo que avaliava o estado do tal trequinho, enquanto prometia mentalmente fazer um curso de mecânica básica o quanto antes. Por fim, aceitei o prazo e o orçamento. Uma eternidade e uma fortuna, respectivamente.

E é assim que estou agora no ponto de ônibus da Renato Paes de Barros, esperando pelo 637J-10, Vila São José. Cansadíssima. Hoje, tudo o que poderia dar errado, deu. Tudo o que não poderia dar errado de jeito nenhum, deu também. Servidores fora do ar, internet instável, serviços intermitentes, usuários reclamando e, de alguma forma misteriosa e inexplicável, tudo acabou caindo nas minhas costas. Mas o longo dia, enfim acabou. Agora, é só esperar uma hora pelo ônibus que acabei de perder de acordo com o app, aguentar firme o percurso de mais uma hora de aperto, caminhar 20 minutos e estarei me arrastando pra dentro de casa.

O ônibus chegou. Arranjei um cantinho, em pé do lado da cobradora. Um bom lugar, fora do empurra-empurra do corredor e do lado de uma janela escancarada. Excelente.

- Nena!!!!! Voltou de férias, mulher! Olha só, que cor bonita! – a cobradora fez uma festa à entrada de uma moça corada de sol.

- É, tirei 15 dias. Tava precisando. Fui pra Santos, na casa da minha mãe.

- Aí sim, hein!

- Pois é, Janete! Sol, camarão e cervejinha gelada. “E disseram que eu estava na pior...”. O único problema das férias é que elas acabam.

- Verdade. Bom, por aqui tudo na mesma. Hoje é aniversário da dona Maria.

- É mesmo! Será que vai ter bolo?

- Ela disse que sim. Ô, Lucio, viu a cor da Nena? Tava de férias, a danada.

Lucio era o nome do motorista, pelo jeito. E, pelos próximos três pontos foi assim. Entrava alguém, Janete, a cobradora, gritava uma saudação alegre, seguiam-se comentários, o lembrete do aniversário da dona Maria, a pergunta do bolo. Desta forma, fiquei sabendo que a Nena, a moça corada, tirou férias que tinham sido adiadas por três longos anos. Ela sempre vendia a folga e guardava o dinheiro para poder comprar uma casinha. Pois agora comprou um terreno e foi descansar um pouco, antes de recomeçar a poupar, desta vez para construir. Luzia, que entrou no próximo ponto, junto de Ernesto, chegava sempre 10 minutos atrasada na faculdade de fisioterapia, mas os colegas anotavam tudo e os professores, sabendo que ela vinha direto do trabalho, sempre faziam a chamada no final da aula. Ernesto, por sua vez, estava voltando para casa, para ficar com os filhos enquanto a esposa enfermeira saía para o turno da noite. No próximo ponto, entrou Ludimilla, que não estava voltando para casa como a maioria. Ela estava indo para o trabalho, como cuidadora de um senhor muito idoso que fazia questão de morar sozinho. Já fazia cinco anos que ela trabalhava para ele e havia entre eles um carinho genuíno. Marisa, que estava voltando para casa depois de uma jornada corriqueira e absurda de 12 horas num restaurante árabe, trouxe docinhos para acompanhar o bolo de dona Maria e entrou no ponto seguinte.

No quarto ponto, enfim, entra dona Maria, carregando uma grande sacola. Uns quarenta anos, mãos firmes de trabalhadora e sorriso tímido, ficou comovida enquanto o ônibus inteiro cantava parabéns. Ernesto levantou-se e cedeu o lugar para a aniversariante, que abriu a sacola e tirou um grande pote plástico com um bolo confeitado, pratinhos de papel, garfinhos de madeira. Não é que teve mesmo bolo? Só estava difícil fazer chegar um pedaço até Lucio, o motorista. Como eu estava antes da catraca, me ofereci para levar o pratinho até ele. Na volta, ganhei um pedaço grande do bolo com docinhos árabes, um chapéu de aniversário que alguém trouxe de brincadeira e o apelido de “comissária de bordo do busão”.

O trajeto deveria ter durado aproximadamente uma hora. Mas desci do ônibus com a sensação de ter voltado uns dez anos no tempo. O cansaço e a tensão do dia difícil haviam passado e cedido lugar a uma estranha nostalgia. Talvez o conforto do carro tenha um custo além do combustível e do IPVA, afinal: o isolamento. Fechada na minha cápsula particular, ouvindo minha playlist e mergulhada no ar condicionado, desfruto de conforto, mas perco Nenas, Luzias e Ernestos. Perco histórias diferentes da minha e, ao mesmo tempo, tão parecidas. Perco o lembrete de que ninguém está só.

Cheguei em casa ainda usando um chapéu cônico de balões coloridos na cabeça, com um prato de papel nas mãos, a boca cheia de bolo caseiro com recheio de doce de leite e ameixa e a sensação de ter reencontrado uma grande verdade da vida.

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