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1992
Conto

1992

Existem pessoas que acreditam em destino, outras em simples oportunidades. Algumas acreditam que o destino pode ser mudado e lutam para isso, outras aguardam ansiosamente para que o seu destino se cumpra.

Rodrigo Vinholo
6
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Áudio drama
1992
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Marielle acreditava em destino. Bruno acreditava em sincronicidade.

Para ela, a maioria das coisas da vida já estavam escritas, definidas antes mesmo do nascimento de cada pessoa, e inexoravelmente todos seguiriam a esses pontos-chave de cada vida.

Para ele, não havia nada propriamente escrito, mas haviam influências maiores que ditavam o caminho de cada um, que se manifestavam de modo síncrono em diferentes elementos da vida, manobrando cada pessoa naturalmente a certas coisas da vida.

Marielle acreditava que os pontos-chave de seu destino podiam ser evitados ou aceitos, conforme seu desejo e ações, sendo que eram fixos apenas como momentos de oportunidade.

Bruno acreditava que se nada fizesse contra a maré e a correnteza de sua vida, seria levado a um destino naturalmente, mas também aceitava que era possível nadar contra essas forças externas e vencê-las, se achasse necessário.

Ela gostava de sua visão de mundo e também a temia, porque constantemente se via preocupada com a chance de que poderia perder uma janela de oportunidade, sem saber de onde é que viria o sucesso a partir de uma decisão ou ausência de decisão.

Ele se sentia angustiado com as consequências de sua filosofia, e frequentemente se esforçava para lutar contra o destino, recusando-se a ser submisso a caprichos que não fossem os seus, mas não conseguia evitar de reconhecer em sua vida coincidências cheias de significado desde que sua irmã mais velha lhe deu uma pilha de livros e revistas sobre Carl Jung.

Marielle, sem nunca entender bem por quê, tinha certeza de que algumas coisas da vida existiriam em oportunidades únicas. Dentre elas, o amor. Essa crença era apoiada pelo fato que, encaminhando-se para o fim da faculdade, jamais havia encontrado qualquer relacionamento que parecesse profundo e verdadeiro. Sentia que a janela de oportunidade do amor significativo surgiria uma única vez, e se fecharia para nunca mais.

Bruno lutava contra qualquer coincidência que o levasse ao amor, e desconfiava do que lhe parecessem pequenos truques do destino para que conhecesse alguém. Só saía com alguma garota se sentisse que foi ele mesmo que criou as oportunidades para que os dois se encontrassem e, se durante um encontro e mesmo depois do namoro sentisse que havia alguma sincronicidade acontecendo, colocava um fim em tudo.

Marielle não conhecia Bruno, e era infeliz e só. Ela temia que fosse culpada, como geralmente acontece, pela própria infelicidade, mas lhe restava a esperança de que identificasse a oportunidade do amor real, quando esse surgisse.

Bruno também não conhecia Marielle, e também era infeliz e só. Ele sabia que era culpado por sua infelicidade e solidão, mas sentia-se orgulhoso e forte de não ceder ao destino e às suas loucuras, pois tinha quase certeza que isso seria pior.

Marielle e Bruno, sem qualquer aviso, passaram a ter certeza de que estavam sendo perseguidos pelo amor. Isso é, que ele estava tentando se manifestar em suas vidas. E isso os assustava terrivelmente de maneiras muito diferentes.


***


Marielle não sabia o que é que a levava ao parque.

Todas as noites vinha a vontade incontrolável, e ela sabia que essa vontade era comandada pelo amor. Ele tinha uma armadilha para ela, e ela estava mais do que pronta para deixar-se capturar. Se fosse para explicar para alguém o que é que estava acontecendo, não teria as palavras certas para definir nada do que acontecia. Simplesmente sabia.

Sabia que tinha que ir ao parque, e aguardar por lá. Sentia que estava em uma janela de oportunidade, que aqueles dias eram os únicos em que poderia encontrar o amor, e que eles poderiam se esvair tão rápida e misteriosamente quanto haviam surgido em sua vida, e que o parque era o lugar em que o amor se manifestaria.

Não havia nenhum sonho premonitório, nem inspiração divina, nem coisa do gênero. Era uma força de atração, como se um ímã em seu peito a puxasse, e isso a deixava feliz pela simples ideia de que, se havia um amor a ser encontrado de uma maneira tão inexplicável, ele realmente seria muito grande. Seria o amor maior e único que sempre teve certeza que surgiria em sua vida.

É claro que não era fácil sair toda noite para ir ao parque. Não tinha independência o suficiente para isso. Não tinha como explicar à mãe, então inventou que estava reforçando o inglês com uma amiga da faculdade. Isso não amenizava o medo maternal de que ficasse tarde na rua, de que fosse atacada por um tarado ou coisa do tipo, mas ao menos dava uma justificativa justa o suficiente para que não parecesse justo proibi-la de sair.

No parque, Marielle nunca sabia exatamente o que fazer. Sentava-se em um banco, caminhava por entre as árvores, admirava o laguinho artificial. Cada atividade era acompanhada com uma imaginação rica de como seria o seu encontro predestinado. Será que cruzariam olhares entre as árvores e seria amor à primeira vista? Seria o amor mais furtivo, se manifestando com alguém dentre os tantos transeuntes que ocasionalmente via por lá?

Todos os incontáveis cenários de livros e filmes de romance ou comédias românticas cruzavam sua mente nesses momentos. Encontros dramáticos, coincidências fantásticas, resgates, competições com rivais, acidentes felizes, ou simples conversas e olhares e toques, como a realidade era mais propícia em fazer.

Passou a levar seu material de estudos, tanto para manter as coisas da faculdade em dia, quanto para realmente ver se aprendia um pouco mais de inglês e mantinha seu disfarce minimamente honesto. Como não sabia quanto tempo duraria a janela de oportunidade, não podia se dar ao luxo de jogar tudo para cima em nome do amor, mesmo que fosse o maior do mundo.

Essa consciência, é claro, não reduzia a ansiedade que sentia quando se via pensando que talvez a concentração nos livros a fizesse perder a oportunidade para um olhar, uma palavra, algo que consolidasse o destino, e assim, apesar das ótimas intenções, os estudos também não rendiam como deveriam.

Algumas semanas depois que passou a visitar o parque, porém, Marielle ficou um pouco mais confiante de que estava conseguindo encontrar o ponto de equilíbrio. Do mesmo modo como sentia a atração magnética na altura do peito, e como sentia que havia uma tensão elétrica em todo o ar que marcava sua janela de oportunidade, passou a sentir, em sua mente, pequenos sinais da ligação do destino atuando ao seu redor.

Era como se visse cores a mais, ou pequenos impulsos do ar ou de um eletromagnetismo misterioso. Ou quem sabe fosse realmente magia — não saberia dizer qual era a diferença, afinal. Seja o que fosse, a sensibilidade que permitia que detectasse essa presença era também o que lhe dava quase que a indicação de um relógio.

Assim, não tinha dúvidas de que era verdade quando, depois de algum tempo no parque, algo a cutucava como se dissesse “por hoje é só, tente novamente amanhã”, e então decidisse voltar para casa.

No momento em que tinha essa sensação e na volta para casa, Marielle estava sempre tranquila e satisfeita. Ainda que lhe restasse a melancolia e a solidão de sempre, tinha certeza de que fizera tudo que poderia estar fazendo para conquistar o amor.

Só quando estava em casa, sozinha em seu quarto, deitada em sua cama, que tudo parecia loucura demais, e se perguntava se deveria desistir daquele plano, e ignorar o que provavelmente era apenas uma loucura ilógica, talvez algo nascido de seus desejos não-correspondidos.

Mas ela caía no sono logo e, na manhã seguinte, estava pronta para seguir com seu dia e, no fim dele, correr atrás da janela de oportunidade.


***


Bruno não andava dormindo bem.

Isso significava que também nunca estava totalmente desperto, o que prejudicava ainda mais o seu humor. O mau humor, aliás, vinha inicialmente por conta das coincidências — ou melhor, como ele corrigiria, “sincronicidades" — que eram o que causavam sua falta de sono, para começar. E então, com mau humor, tudo rendia menos, e tudo irritava mais, o que prejudicava ainda mais o sono, e fazia as sincronicidade parecerem ainda mais evidentes e intrusivas.

Era um tipo de ciclo vicioso difícil de se escapar.

Números. Bruno estava vendo números em todos os lugares. Isso pode soar mundano a qualquer um que não convive com um excesso de sincronicidades, exatamente porque não faltam números em qualquer lugar do mundo. Mas era diferente, dessa vez.

Bruno podia lidar bem com ver números repetidos no relógio. Por toda sua vida, ver “11: 11” nos ponteiros ou em números acesos — entre outras combinações de repetição menos marcantes — era tão comum que já lidava com eles quase com neutralidade. Conseguia evitá-los, ou evitar o destino que de um modo ou de outro indicavam.

Normalmente, era simples: algum tema ou palavra se repetia muito durante o dia? Era só evitar as situações, coisas e pessoas em que se repetia. Era um número repetido o objeto de sincronicidade? Mesma lógica.

Isso já havia feito Bruno evitar certos ônibus, carros, endereços e a se isolar em horários-chave que entendesse que estivessem ligados às tentativas do destino de conduzi-lo a algo.

O que vinha acontecendo era diferente. Agora, em vez de repetições de combinações numéricas na vida, em vez de números repetidos entre si, o que surgia era uma sequência. E essa sequência insistia com uma tenacidade que Bruno jamais conhecera antes, fosse em números ou nos caprichos do destino.

Durante o dia, bastava se ver menos atento para que algo colocasse à sua frente o número 8. E a ele se seguia um 0, e a esse um 1, e depois outro 0. Bruno não sabia qual era a sequência inteira, nem qual era a quantidade total de números, mas sabia que já a havia visto ao menos uma vez, pois ela passou a ficar clara a toda aparição posterior. E isso o irritava muito.

Bastava ligar a televisão para o número surgir no meio de uma entrevista (“…oito anos atrás tive a oportunidade de trabalhar com…”), e uma mudança de canal cair em um jogo de futebol, onde o placar estaria inevitavelmente 0 para o time da casa e 1 para o rival.

Geralmente, a solução era se focar demais em outra coisa, ou apertar os olhos e os ouvidos até que a raiva passasse e sentisse, bem longe, como se algo se desconectasse. Mas era só relaxar novamente para acontecer de novo. Quando se deitava, os números pareciam ganhar salvo-conduto para sua mente, impedindo qualquer descanso.

Bruno reconhecia que isso era anormal. Ou melhor, mais anormal que o anormal de sempre.

Por alguma razão, a maré das circunstâncias estava mais forte. Algo tentava arrastá-lo para… para quê? Parecia uma mudança muito grande, maior do que qualquer uma que havia enfrentado, e o desconforto da resistência era equivalente. O modo como seu corpo, mente e sentimentos eram fustigados parecia demasiadamente cruel, em comparação a qualquer outra sincronicidade do passado.

Mas ele ainda resistia. E o que cansava ainda mais era que a resistência sempre vinha com um pouco de dúvida. E se toda aquela força indicasse que havia algo para ele? Algo que devia fazer, e que o destino realmente era uma coisa real ou, não sendo, que aquele caminho não seria melhor? E ao mesmo tempo vinha a ideia de que talvez se tornasse uma pessoa melhor e mais forte por resistir àquele ataque. Que enfrentaria a maré, todas as instabilidades, e sairia delas como uma versão superior de si mesmo.

Geralmente, no ápice do seu cansaço, vinha ainda outra ideia: a de que, se tivesse amor em sua vida, poderia se proteger daquilo. Tal noção vinha deslocada da pretensão de que a maré o conduzia exatamente para o amor, porque todo seu histórico com sincronicidade havia mostrado que era diferente, quando o universo tentava conduzi-lo a conhecer alguém.

E antes de que sua consciência se apagasse para alguns poucos instantes de um sono sem sonhos, mas ainda agitado, Bruno sentia rancor pela suposição de que a maré das circunstâncias pudesse estar agindo de modo tão agressivo para jogá-lo em direção ao amor. Que tipo de amor seria esse, se dependia de que ele fosse tão assombrado por números?

Então vinha a inconsciência. E, pouco tempo depois, a consciência. E os números:

8…0…1…0…


***


A ansiedade era a pior parte.

Marielle nunca sabia se havia deixado de fazer algo certo, ou se havia feito algo de errado. Além da certeza da janela de oportunidade como um todo, da atração ao parque e das janelas menores que cada noite oferecia, uma coleção de outras dúvidas se formavam em sua mente sempre. Como nada do que tinha como referência era tangível, era fácil que a paranoia da falta de confiança lhe desse alarmes falsos de suas intuições, o que gerava novas ansiedades para se alinharem às antigas.

Por vezes passava alguém por perto, e a incerteza sobre o papel daquela pessoa em seu destino a fazia se questionar se deveria ter feito algo. Ao mesmo tempo, é claro, havia a incerteza sobre a necessidade de não interagir com aquela pessoa em particular, pois lhe era claro que, tão problemática quanto a inação, havia a chance de realizar alguma ação que arruinaria todas as suas possibilidades de futuro, ao anular a chance de outras ações e omissões.

O amor poderia vir igualmente por ter feito uma ação ou se omitido dela, então a ação e a omissão eram igualmente paralisantes. Nem conseguia mais estudar, porque sempre havia o risco dos livros a distraírem da oportunidade perfeita que ela jamais saberia como viria.

Marielle tentava acalmar a respiração, quando tinha esses pensamentos, e sentir as coisas que não sabia explicar como é que sentia, mas não vinha nada. Ou, dependendo, achava que vinha, mas depois não tinha certeza, e começava até mesmo a duvidar da possibilidade de que tivesse sentido algo para começar, e pensava que nem deveria estar ali no parque. Era tudo terrivelmente confuso.

Cansada de se cansar, Marielle passou a caminhar pelo parque. Ainda que parte de suas paranóias lhe dissessem que aquilo era um erro, tanto por fazer uma ação quanto porque estava deixando de se omitir de ação em um lugar específico, ela se convenceu até certo ponto de que era mais prático que cobrisse uma área maior de possibilidades caminhando durante o tempo da janela de oportunidade.

Depois dos primeiros dias, quando se acostumou o suficiente com isso para que essa ansiedade específica se amainasse, tentou prestar atenção com sua sensibilidade aos arredores, vendo se havia caminhos que seu ímã interno puxava ou repelia. Mais alguns dias depois, se convenceu, com a mesma falta de lógica aparente de qualquer outra de suas decisões, que o ponto que o destino queria que ocupasse era realmente um banco do parque, mas um completamente diferente do que os que havia ocupado antes.

Seu novo posto era em um banco próximo à outra entrada do parque. O ponto oposto do que o que estava antes. Outras árvores, outro caminho, outra rua próxima, mas nada diferente demais. Ainda assim, a ansiedade diminuiu muito. Se não fosse naturalmente ansiosa e um pouco infeliz, Marielle diria que estava confortável ali. Que estava bem.

E, inegavelmente, algo a convenceu de que poderia fazer o que quisesse ali, que já que estava no lugar certo, era só questão de estar também ali na hora certa. O que estivesse fazendo era o que menos importava, então poderia estudar, ler, comer, ouvir música, talvez até dormir, mas esse tanto ela jamais se arriscaria a fazer. Não confiava o suficiente em si mesma, no mundo, ou no destino para dormir no ponto.


***


Bruno havia desistido. Precisava dormir.

Não valia mais a pena o orgulho ou a tentativa de controle. Estava claro que a maré das circunstâncias o mataria se fosse necessário para que recebesse a maldita sequência numérica.

O corpo doía e não respondia bem. A pele estava pálida, as olheiras enormes, e a atenção sempre distante. A mente era como melaço, turva e lenta. Era hora de parar de lutar.

Deitou-se na cama cedo, como não havia feito há tempos, e comandou seus músculos ao relaxamento. Não precisou de muito: o corpo sabia mais do que ele dessas necessidades, e começou a se desativar ponto a ponto.

Bruno abraçou pela última vez todo o ultraje, raiva e ódio que sentia de toda a sua situação, e soltou-os no vazio de sua mente. Eles flutuaram no melaço, tremelicaram e desapareceram, deixando para trás algo que ele sabia que era verdade: a esperança de que realmente aquilo lhe trouxesse o amor.

É lógico que Bruno queria amar, queria sentir tudo que o sentimento e tudo correlato tinha a oferecer. Era estranho admitir a si mesmo, mas tirando as barreiras de resistência, era fácil e até bom. Pensou nos livros de Jung e em sua irmã e se perguntou quais os problemas psicológicos que poderia ter e as implicações em sua vida, mas os pensamentos escapavam em meio ao cansaço.

E foi então que pensou nos números, e notou que eles ainda não haviam começado a vir. Esperava que com a desistência viessem como uma barragem rompida. Sentia-se como um personagem de desenhos animados tampando um trinco no muro de uma represa com o dedo, ou com um bandaid, e a parede envergando sob a pressão da água… mas nada dos números. E nada do sono que tanto desejava.

Bruno estava cansado demais para dormir, e com a mente livre demais para ser ocupada pelos malditos números.

Mudou de posição na cama. Nada. Outra vez, e nada outra vez.

Tentou se lembrar deles, desenhando-o em sua mente.

8… 0… 1… 0…

Vazio. Os outros números, antes sempre perigosamente à margem de sua consciência, agora se recusavam a vir. Sequer podia senti-los se esgueirando.

Virou-se com a cara no travesseiro e deixou a espuma abafar um grito de frustração. Quando isso não foi o suficiente, transformou-o em saco de pancada até que os braços se lembrassem que estavam cansados demais para socar um travesseiro.

O universo o odiava. Era um fato. Ele iria morrer, agora, desaprendendo como dormir ou como se livrar daquilo. Talvez virasse um zumbi, vivendo para sempre em um estado intermediário entre sono e consciência, realização e falta de realização.

Queria chorar de frustração, mas isso era algo que sua mente pensou que seria útil, e não seu corpo. Seu corpo só sabia continuar pesando sobre o colchão e o travesseiro.

E então desistiu outra vez. Mas desta vez, desistiu de tudo. Por um instante, Bruno desacreditou em toda e qualquer possibilidade. A única certeza que tinha era da inviabilidade de sua existência. Não existiria mais, nada aconteceria, nada pensaria, sentiria ou desejaria.

Então a barragem se rompeu, e Bruno saltou para fora da cama, porque tinha medo de que os números que ocupavam seus pensamentos vazassem por suas orelhas.

8… 0… 1… 0… 2… 8… 5…

8010285.

801-0285.

Era um número de telefone. A sincronicidade havia lhe trazido um número de telefone.

Bruno correu para a escrivaninha, abriu uma gaveta, agarrou um lápis e registrou o número. Ficou por alguns instantes olhando para a sequência, reconhecendo uma nova liberdade em seu corpo e mente. Depois tossiu, depois riu, depois gargalhou, depois caiu na cama e dormiu profundamente por 24 horas.


***


A bússola de Marielle havia começado a lhe dar um novo motivo de ansiedade.

Depois de se instalar naquele canto do parque, tudo pareceu certo, até que notou o que ficava na esquina, e sua intuição estranha lhe disse que era aquilo o motivo de tudo: era o orelhão laranja, com a marca da Telesp nas laterais. Aquilo era o seu destino. Era por ele que estava ali.

Marielle não sabia dizer se ele sempre havia sido o objeto final, ou se havia se tornado, mas sua intuição parecia bem certa. Entendia que tinha que esperar, do banco do parque, por um telefonema.

A inspiração veio à toa, mas foi definitiva, depois que surgiu. Seus olhos não conseguiam se descolar dele. Em um primeiro momento, examinou-o como se fosse uma relíquia sagrada, analisando até mesmo os adesivos repetitivos anunciando profissionais e serviços diversos, a maioria pouquíssimo reputáveis.

Não encontrando nenhuma mensagem do destino, e pouquíssimo inclinada a arriscar sua sorte com qualquer telefonema, pôs-se a esperar. O banco do parque parecia certo, e também era um modo de ficar no alcance do telefone, perto o suficiente, mas sem se tornar um inconveniente aos transeuntes e a potenciais usuários do telefone, bem como para evitar mais suspeitas dos guardas que faziam ronda na região e que pareciam estar reconhecendo-a e desconfiando cada vez mais de seus motivos para estar ali, sozinha, à noite.

Mas era difícil de disfarçar. Cada pessoa que surgia para usar o telefone representava um novo aperto no coração, porque temia que o importante e inexplicável contato se daria exatamente no momento em que ocupavam-no com suas conversas, e ela perderia a janela de oportunidade específica de encontrar seu grande amor.

A essa altura, Marielle não conseguia deixar de tratar o assunto como certeza. Mesmo todo o aspecto improvável e até ridículo de conversar com um estranho ligando para um telefone público. Mesmo com o risco que havia em falar com um estranho qualquer.

Não sabia o que diria, exatamente. “Você é quem eu sempre esperei encontrar.” parecia certo, mas havia um compromisso forte nessa mensagem. Mas pensando, refletia que se era questão de destino, isso era acurado o suficiente, e talvez até mesmo ele se ousasse a falar algo assim. Não parecia impossível, ainda, que terminassem a primeira conversa com um "eu te amo" mútuo, que não ficaria esquisito para ninguém.

Então alguém ia até o orelhão e o ocupava, ligando para um dos números pouco reputáveis ou para algum outro de memória ou de uma anotação, e todo o romantismo sumia com a ansiedade aflitiva que subia em seu âmago.


***


Era outra vez noite quando Bruno acordou. Por um instante, ele se sentia leve e completamente vazio. E então ele se lembrou do número.

Sentia fome e sede, e sabia que precisava de um banho, mas a chance de acabar com tudo aquilo de uma só vez era a prioridade.

Levantou-se da cama e caminhou até a mesinha, debruçando-se sobre o telefone. O número no caderno estava logo ao lado, mas notou que se lembrava dele com clareza.

Em seu peito, as emoções eram complexas. Sentia um estranho amor que não entendia, e sentia uma apreensão profunda, e já não sabia dizer qual dos dois era influenciado por sua razão. Mas decidiu-se, e pegou o telefone.

8… 0… 1…

Desligou.

Tinha plena consciência de que aquele era o momento em que tudo poderia mudar. De que tudo, especialmente suas convicções, se chocariam com o desconhecido.

Respirou fundo. Tirou o telefone do gancho outra vez.

8… 0… 1…


***


Um homem havia acabado de deixar o orelhão. Marielle, enquanto isso, tentava se concentrar em não encará-lo com raiva, consciente de que ele não tinha como saber de sua busca predestinada.

Do banco do parque, falava consigo mesma, quase ritualisticamente, imaginando os cenários terríveis que poderiam acontecer de alguém tentar ligar para aquele número durante a ligação de outra pessoa. Da chance que tinha de perder tudo. Estava tão concentrada que, quando efetivamente ouviu o aparelho tocar, seguiu imóvel por alguns segundos.

Depois correu. Livros, caderno, lápis, borracha, tudo arremessado enquanto ela abandonava seus estudos, saltando por cima do banco e da cerca, para alcançar o telefonema do seu destino.

Nesses metros, que se tornaram centímetros mas pareciam quilômetros, nos segundos que pareciam horas, uma agonia surgiu em seu corpo. Enquanto corria, tinha a certeza de que a janela de oportunidade estava terminando. Não especificamente, mas em geral. Toda ela. Sabia que essa era sua última chance.

Quando seus pés tocaram a calçada, já girava o corpo para entrar na cobertura do orelhão, e o toque seguia, irritante e maravilhoso. Braço estendido, dedos abertos e... o telefone estava em suas mãos.

— Alô?!

Talvez o que existiu do outro lado fosse silêncio, apenas por um instante, ou talvez fosse apenas impressão enquanto chegava com o fone próximo à orelha, ou talvez fosse a tensão que a impediu de ouvir o que havia do outro lado, em uma surdez pontual. E depois veio o som:

— Tuuuuuuuu… — respondeu a linha telefônica, sem ninguém do outro lado.

A janela havia se fechado. Não havia mais o que fazer, não havia mais oportunidade.

Ela havia vindo, e havia partido do mesmo modo que veio.

Marielle pensou em chorar, em gritar, até em quebrar aquele telefone, mas nada fez. Sabia que jamais conseguiria explicar para qualquer pessoa aquilo e, já não sentindo nada, não tinha certeza se algum dia havia sido real.

Voltou ao parque, arrumou suas coisas e, sem olhar novamente ao orelhão, foi estudar em casa.


***


— Tuuuuuuuu…

Bruno olhou para o telefone, confuso.

Podia jurar que havia ouvido a linha chamar algumas vezes, mas quando alguém pareceu ser atendido havia o som da linha, do outro lado.

Desligou. Tentou outra vez. Uma voz gravada respondeu:

— Telesp informa: este número de telefone não existe. Favor consultar o catálogo telefônico ou chamar o serviço de informações.

Desligou.

Respirou fundo. Sentia-se perturbadamente livre. Aquele número, afinal, não era nada. Talvez realmente precisasse de algum tratamento psicológico, porque claramente não conseguia confiar no próprio discernimento.

Mas tinha que comemorar que, ao menos, o número agora parecia uma assombração antiga em sua mente. Se soubesse que só precisava ligar para um número inexistente, teria feito isso para começar.

O que precisava, de todo modo, era de mais sono. Ainda tinha muitas noites insones para compensar. Voltou para a cama, deitou-se, fechou os olhos, e um instante antes da inconsciência, percebeu o pedaço de uma tristeza perdida, que rapidamente se apagou.


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