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1976
Conto

1976

Muitas vezes, o fio que liga nossa vida a vida de outra pessoa pode tornar nosso trajeto inesperado, pode nos surpreender e nos fazer entender algo que, por medo, não queremos aceitar.

Carol Toledo
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Áudio drama
1976
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Quem viveu a década de 70 no Brasil se lembra do misto de emoções da época. A alegria da adolescência com o primeiro emprego, o primeiro amor e a vida como um todo, se misturava ao medo e angústia de um país tomado por militares. As capitais borbulhavam em manifestações e repressões, uma disputa de força entre um não-governo e seu povo que se esticava desde 1964.

Mas no interior o ritmo era outro, as cidades, raramente ficavam sabendo dos acontecimentos, dos ataques e pessoas desaparecidas. As manchetes se limitavam a notícias pouco relevantes para o cenário político e, tão pouco, econômico. Era o que seu José sempre dizia, quando Lúcia passava por sua banca a caminho da escola. Quem não o conhecesse, se atreveria a dizer que se tratava de um velho louco, daqueles que acreditavam em teorias da conspiração e viviam a vida para questionar os atos do governo. Mas não para Lúcia, ela poderia ficar horas a fio escutando as histórias daquele senhor tão sábio.

A banca de jornais era igual às outras, os gibis coloridos ficavam nas prateleiras de baixo onde as mãos gordinhas e ansiosas das crianças podiam alcançar. As revistas de esportes e de assuntos picantes ficavam mais acima, para darem de encontro com os olhares curiosos dos adultos. Já as revistas de fofocas e os jornais do dia eram expostos na frente para atrair possíveis compradores, uma estratégia antiga, mas que assim como naquela manhã não deixou a desejar.

Uma manchete, no meio de tantas outras, chamou a atenção de Lúcia: O circo estava na cidade. Há quanto tempo não saía para se divertir em um espetáculo? Jogar os jogos divertidos de azar para ganhar apenas um ursinho de pelúcia bobo. Sim, tinha boas memórias. Ela nem esperou chegar o intervalo escolar para contar a novidade à Vera.

Estava tão empolgada com a ideia que não percebeu que havia mais alguém escutando a conversa. As meninas sentavam no fundo da classe, onde seus cochichos eram abafados pelo velho ventilador de teto que rangia e chiava a cada volta. As carteiras de madeira cobertas de desenhos e mensagens talhadas estavam perfeitamente enfileiradas, os alunos copiavam o quadro negro em silêncio enquanto a professora corrigia as lições de casa em sua mesa. Nenhum dos garotos tinha coragem de conversar durante as aulas de ciências da sra. Maria Aparecida, uma das mais rígidas e antigas professoras do colégio, que não hesitou em colocar as “faladeiras” para fora com uma advertência por atrapalhar a aula.

Enquanto Lúcia e Vera esperavam do lado de fora da sala da diretora, João Pedro se aproximou curioso. Seus velhos tênis pretos faziam barulho pelos corredores enquanto caminhava e sua camiseta do uniforme estava ajeitada graciosamente por dentro da calça, conforme mandava o manual.

- Ei, Lúcia, por que está tão animada com um circo?

- Por que quer tanto saber, Pedro?

Vera permanecia em silêncio. As covinhas acentuavam suas bochechas coradas enquanto ela tentava se esconder encolhendo os ombros e se contraindo na cadeira. Apesar de morarem no mesmo bairro, eles raramente conversavam, isso até Beto se mudar para a vizinhança.

- O que acha da gente ir hoje à noite?

O sorriso de João Pedro era seu charme e, embora não fosse conhecido como o mais bonito da escola, com certeza estava entre os dez primeiros mais disputados entre as garotas.

Diferente de Vera, Lúcia, conhecia Pedro há muitos anos, eles moravam a poucas casas de distância e passaram a maior parte da infância juntos. Lúcia olhava preocupada para sua amiga, mas antes que pudesse responder o rapaz insistiu.

- Vamos? O que acha, Vera? Eu chamo uns amigos e vamos todos.

- Olha, Pedro…

- Por mim, tudo bem, Lúcia.

Sua voz era baixa, parecia um sussurro.

- Viu, Lúcia! Vai ser divertido... A gente se encontra na frente da minha casa.

Pedro piscou para elas e voltou para a sala, não antes de arrancar alguns suspiros de Vera. No entanto, Lúcia, não estava gostando da ideia, ela conhecia Pedro muito bem.

As meninas saíram da escola direto para a casa de Lúcia para planejar o que vestir, Vera estava muito empolgada para sair com Pedro, tanto que sua amiga estava com medo de vê-la magoada. Quando a grande noite finalmente chegou, Lúcia, vestiu uma calça qualquer, um par de sapatos novos e completou o visual com uma jaqueta jeans. Vera estava usando seu novo vestido verde de mangas largas e um par de botas pretas que comprou no outono passado. O vestido soltinho parecia lhe fazer flutuar conforme se dirigiam para a casa do rapaz, que já estava esperando sentado em frente ao portão.

- Uau, valeu a pena ficar esperando, bicho! Você tá um broto, Vera!

Aquela voz era mais do que conhecida, se tratava de um João diferente, seu segundo nome era Carlos. O rapaz morava na região e estudava no mesmo colégio dos demais, só que um ano a frente. Era conhecido pelas camisas coloridas e o cabelo volumoso e, apesar de não ser um galã como Pedro, não era de se jogar fora.

- Pega leve, Carlos!

João Pedro lhe deu um tapa no ombro com as costas da mão.

- Não fica grilado, não, chapa!

A risada de Carlos era escandalosa e desajeitada, era quase impossível ficar sério perto dele.

- Nós podemos ir?

- Na verdade, ainda está faltando o…

- Está falando de mim, JP?

O cheiro de colônia era inconfundível, assim como aquela voz grave de vaqueiro vindo do sul, que arrepiou a espinha de Lúcia como um fantasma.

- Beto? Você chamou o Beto, Pedro?

A menina não disfarçou a insatisfação, mas Roberto parecia não notar.

- Não posso dizer que convidei… Você conhece o Beto

Lúcia respirou fundo, esboçou um sorriso sarcástico e estendeu o braço para Carlos.

- Então, vamos?

O rapaz o segurou, assim como faziam os casais antigamente, seguindo caminho pela rua. Roberto deu de ombros e na tentativa de convidar Vera para o passeio, Pedro passou em sua frente.

- Sem chance!

Disse o rapaz de mullet e calça jeans lavada envolvendo Vera em seus braços, que naquele momento estava vermelha como um tomate.

- Que canoa furada que eu fui me meter…

- Então não venha, Beto!

A voz de Lúcia ecoou pelo quarteirão acompanhada pelas risadas dos garotos, mas Beto seguiu logo atrás. Não era novidade para ninguém o quanto aqueles dois se detestavam, eles praticamente brigavam sempre que estavam no mesmo ambiente e, ainda assim, continuavam a frequentar os mesmos lugares.

Roberto havia se mudado há pouco mais de um ano. Seu pai, um homem velho e rigoroso, vendeu a fazenda que moravam e fugiu para a “cidade grande”, onde criaria o filho longe da megera de sua esposa. Ele se tornaria um homem de verdade, pelo menos era o que prometia o velho peão.

Os jovens já podiam ver a grande lona colorida no meio do terreno, a música alta lhes enchia o peito de nostalgia e o cheiro de pipoca fazia seus estômagos roncar. Palhaços, homens, mulheres e crianças circulavam entre as tendas montadas ao redor do picadeiro, cada uma mais brilhante e colorida que a outra. Com exceção de uma. Apesar do tecido púrpuro opaco, era possível ver a cabana montada quase no final do quarteirão, próximo a linha do trem. A única informação que tinham era de um velho letreiro de madeira, uma promessa forte para os corações sensíveis ou charlatanismo para os mais céticos. Contudo, as palavras que atraíam os jovens como um ímã eram “encontre sua alma gêmea”.

Pedro jamais entraria em um lugar como aquele, não acreditava em alma gêmea, muito menos que alguém fosse capaz de magicamente mostrá-la. Carlos, por outro lado, estava ansioso para descobrir quem era sua cara metade e arrastou o grupo para dentro da velha tenda. Não havia muito espaço ou luz no ambiente, tudo o que podiam ver eram algumas almofadas jogadas no chão e uma mulher com uma longa túnica escura, talvez azul, talvez roxa, jamais saberiam.

Roberto deu um passo a frente com o peito estufado, tanto que os botões da sua camisa ameaçaram se soltar, sentou-se de frente para ela e com o sotaque carregado disse “boa noite, moça, quero encontra minha alma gêmea”. A moça misteriosa não moveu um músculo, quase como se não pudesse ver o que estava a sua frente.

Os jovens que permaneciam de pé se entreolharam curiosos enquanto Beto tentava chamar a atenção da mulher misteriosa. Carlos arriscou sentar-se ao lado do rapaz, insistindo para que Lúcia o acompanhasse, e Vera puxava Pedro pelo braço para que não fosse embora. Quando finalmente convenceu o garoto a se sentar com eles a mulher levantou a cabeça e sem dizer nada soprou em cima deles o que parecia poeira vermelha.

- O que é isso? Mas que droga!

Disse Pedro entre uma tosse e outra. Sua camiseta, que outra hora estava branca, agora parecia o mar vermelho.

- Para encontrar sua alma gêmea basta seguir o cordão vermelho que liga suas vidas.

A voz rouca da anfitriã era gélida e atravessava os ouvidos dos jovens como uma lixa.

- Eu não vejo nada!

Carlos procurou ao redor de si.

- Paciência, quando chegar a hora o fio que une vocês irá te guiar.

- Que palhaçada…

Pedro levantou num pulo

- Eu não vim aqui para ficar coberto de pó e ficar ouvindo essa ladainha sem sentido… Vera, você vem?

Antes de se levantar, a menina, olhou ao redor como se procurasse alguma coisa.

- Também estou indo, concordo com o Pedro, essa poeira está me dando alergia!

- Lúcia espera!

Carlos tentou alcançá-la.

- Que gente mal educada! Obrigado pela magia aí, dona! Foi um estouro!

A mulher deu um sorriso com o canto da boca conforme Beto se afastava, “é um bom rapaz”, pensou.

A noite estava apenas começando para os cinco, Vera e Pedro se divertiam nos jogos de acertar a boca do palhaço e das argolas, mas enquanto o rapaz era terrivelmente descoordenado, sua parceira não errava nenhuma vez. Não foi nada difícil para ela conquistar os maiores prêmios, aqueles que Pedro andava desfilando como troféus.

Carlos e Lúcia se aventuravam pelas comidas coloridas, onde descobriram ter mais coisas em comum do que imaginavam. Já Roberto, vez ou outra, corria atrás de um rabo de saia para treinar sua arte da paquera.

Mas, quando o relógio de Carlos tocou meia noite, Lúcia não se sentiu muito bem, de repente as luzes brilhantes das atrações circenses estavam fortes demais, ela rapidamente cobriu os olhos com as mãos enquanto Carlos a mantinha com os pés fixos no chão.

- Lú, o que foi?

- Nada, nada, tá tudo jóia!

Ela esfregou os olhos para tentar enxergar e as imagens foram voltando aos poucos.

- Foi só uma tontura, já passou…

- Vem aqui, melhor você sentar. Vou buscar uma água pra te ajudar a melhorar!

O rapaz saiu correndo se perdendo na multidão enquanto Lúcia massageava as têmporas. As imagens se formavam pouco a pouco diante dela, mas algo muito sútil lhe chamou atenção, um fio escarlate estava preso em seu tornozelo.

- Mas o quê?

Ela mexeu a perna de um lado para o outro na tentativa de soltar-se. Tentou puxar a linha com as mãos, mas era impossível tocá-la, quase como se não existisse. No entanto, o brilho vermelho estava alí, começando em seu tornozelo e fazendo uma trilha por entre as pessoas. Não dava para saber o destino final, Lúcia apenas seguia aquela forma estranha, esbarrando em alguém vez ou outra.

Já estava próxima da grande lona no centro do circo quando viu Roberto preso do outro lado do cordão. Ele a encarou boquiaberto.

- Pô Lú, te procurei por tudo quanto é canto!

Carlos pousou a mão em seu ombro e a trouxe de volta a realidade.

- Você melhorou?

- Eu... não muito…

- Acho melhor eu te levar pra casa!

Ele envolveu os ombros da menina, que permanecia em choque.

- Você vem, meu chapa?

- O quê? Não, não, vão na frente!

- Bacana!

Conforme Lúcia ia desaparecendo no horizonte, o fio vermelho que os unia se esticava, deixando para trás um rastro brilhante no meio da multidão.

- Batizaram o meu suco! Só pode!

- Que isso? Você tá de bode, Lúcia!

- Tô te falando, Carlos, você mesmo disse que eu estava vendo coisas!

O rapaz a olhou nos olhos

- Não, seus olhos estão normais…

- Quê? Não entendi patavinas…

- Se seu suco estivesse batizado suas pupilas iam estar do tamanho do ego do Pedro!

- Como você sabe?

- Tenho experiência, né broto!

- Eu tô ficando louca, é isso!

- Calma, Lú, você só precisa descansar, sacou?

A menina acenou com a cabeça e assim que Carlos saiu colocou seu conselho em prática. Fechou todas as cortinas da casa, tirou o telefone da linha e deitou no sofá com os olhos fechados, tentando ignorar aquele brilho incômodo que a acompanhava por onde ia. Ela não sabia quanto tempo havia se passado quando acordou com alguém batendo em seu portão.

- Lúcia, abre! Precisamos conversar!

Aquela voz fez seu coração parar por alguns segundos.

- Vá embora, Beto!

- Qual é? A gente precisa conversar!

- Eu não tenho nada pra falar pra você!

- Lúcia! Abre o portão!

A menina respirou fundo antes de abrir para Roberto. Ela repetia para si mesma que estava fazendo isso antes que os vizinhos chamassem a polícia.

- O que você quer?

- Eu… eu não sei mais.

- Então o que por que você não vai embora?

Lúcia seguiu em direção a cozinha, na segunda porta à direita do corredor, não conseguia encarar Beto por muito tempo.

- Você quer que eu vá embora!?

De repente, o rapaz a encurralou entre os armários e a mesa da cozinha.

- Eu... quero!

Ela tentou empurrá-lo para longe enquanto desviava o olhar.

- Tem certeza?

Havia um sorriso malicioso em seu rosto.

- Eu já disse que sim Roberto… por que continua parado aí?

Lúcia se arrependeu da pergunta no mesmo instante. Seu coração batia acelerado e o ar lhe faltava nos pulmões, talvez fosse a raiva. Pelo menos era o que ela pensava. Então, Roberto saiu sem jeito com o brilhante fio vermelho se esticando pelo caminho.

O que quase ninguém sabia era o passado deles, o relacionamento que nasceu quando Beto se mudou para a cidade. Um caso que Lúcia queria apagar da memória um dia, mas que talvez nunca fosse capaz de apagar do coração.

Roberto, por outro lado, mantinha suas memórias vívidas, mas se arrependia da forma como tudo terminou mal. Lúcia queria não pensar mais nisso, no entanto lá estava ela deitada no sofá, passando a noite em claro, com a cabeça em Beto outra vez.

Quando finalmente começou a pegar no sono, Carlos bate no portão aos gritos e ela o encontra em um estado deplorável. O rapaz se senta no sofá muito confuso e as palavras mal saem de sua boca.

- Você disse que viu o seu fio, não disse?

Sua voz estava rouca e ele não conseguia olhá-la nos olhos.

- Sim, mas o que isso tem a ver?

- Eu vi também!

- O quê? Onde?

- Ontem a noite, numa festa…

- Calma, Carlos, você está tremendo! Você viu sua alma gêmea?

- Eu não tenho certeza…

- Me conta como aconteceu!

- Quando eu fui pra pista de dança, olhei pra baixo e ele estava lá!

O corpo de Lúcia se inclinou em direção a ele.

- Eu vi aquele fio vermelho amarrado no meu tornozelo… fino que nem uma linha de costura. Eu segui ele pela casa e, juro, achei que meu coração fosse explodir.

- Quem você viu?

- O quê? Ninguém! Eu… eu fui embora!

- Calma! Respira devagar!

- Eu não sei! Acho que bebi demais…

- Carlos, pode confiar em mim!

- Eu… eu sei! Eu só... preciso ir pra casa!

Carlos levantou num pulo e saiu pelo portão como um raio, Lúcia mal conseguiu acompanhar aquelas pernas compridas, muito menos tentar fazê-las parar.

- O que eu vou fazer? Isso não pode ser real!

Dizia para si mesmo a caminho de casa e, enquanto tentava tirar o maço de cigarros do bolso, esbarrou em alguém.

- Desculpa aí, bicho!

A voz era suave como uma melodia

- Tu… tudo bem! Não foi nada!

Carlos mal encarou o rapaz de cabelos cacheados cor de mel, regata branca e colar feito parado em frente a banca do seu José, queria ir embora o mais rápido possível.
- Ei, chapa, você derrubou isso aqui!   

Mas ele apenas continuou seu caminho sem olhar para trás. Chegou em casa desajeitado, atravessou em silêncio a sala onde sua avó assistia a novela e se jogou na cama, onde não viu as horas passarem.

- Carlos, João Pedro no telefone!

A velha senhora gritava do outro cômodo.

- Fala pra ele que eu não tô!

E não estaria, de fato. Ele colocou as botas e saiu sem rumo pela vila antes do sol se pôr. Tateou os bolsos da calça em busca de seus cigarros, mas havia perdido o isqueiro.

- Que droga! Belo dia pra deixar a carteira em casa!

O rapaz sentou na sarjeta há algumas quadras da pracinha onde costumava beber com o Pedro. Não se lembrava da última vez que foram até lá para encher a cara e se divertir, divagou, talvez fosse pouco antes do amigo perder o pai, depois disso Pedro nunca mais foi o mesmo.

- Ei, você está bem?

Uma menina de longos cabelos pretos se aproximou, o vestido com franjas e o par de botas pretas escondiam suas canelas finas.

- Já tive dias melhores, broto.

- Vem sentar com a gente, então! Aí você esquece os problemas.

A menina lhe puxou pelo braço com um sorriso no rosto, era mais forte do que aparentava, e o arrastou até o meio do praça, onde um grupo de jovens estava sentado no chão cantando algumas músicas com um violão.

Não havia uma alma viva andando na rua naquele horário, a lua já estava alta no céu e os poucos estabelecimentos próximos dali já estavam fechados. Era como se estivessem em uma área particular, onde não seriam incomodados.

“Eu que sempre fui chegado, a um romance e aventura. Eu talvez seja condenado, a viver perto da loucura”. A voz aveludada do rapaz que tocava aquecia o coração dos colegas naquela noite de outono.

Carlos, perdido na canção de Ney Matogrosso, se desligou do mundo ao seu redor, era como se o tempo estivesse congelado e não houvesse mais nada além da melodia do violão. A luz fraca que vinha das pontas dos cigarros acesos pareciam vagalumes entre o jardim e a neblina branca que se formava ao redor deles parecia camuflá-los na escuridão.

- Pega aqui, colega.

A menina lhe estendeu um maço de cigarros e o rapaz não exitou em escolher um cuidadosamente. Tateou os bolsos da calça novamente, mas ainda não tinha como acendê-lo.

- Aqui.

O rapaz com o violão lhe entregou um isqueiro.

- Eu não fumo, então, pode ficar.

Não era possível ver bem o seu rosto em meio a tanta fumaça na meia luz, mas sentia uma energia diferente vindo dele.

Quando Carlos acendeu a fagulha do isqueiro viu aquele maldito cordão vermelho diante de seus olhos, sabia que sua alma gêmea estava por perto. Então, sem dizer uma palavra, desapareceu no horizonte, deixando os olhos curiosos para trás.

No dia seguinte, Lúcia, não parava de pensar em como o amigo saiu de sua casa, como tudo parecia tão errado. Ela caminhava distraída em direção a quadra da escola, quando foi puxada em direção a parede atrás da biblioteca, onde ninguém poderia vê-la.

- O que é isso?

O coração estava a mil por hora

- Quero falar com você!

Beto falava baixo próximo ao seu ouvido, o espaço apertado entre a biblioteca e a quadra era o lugar perfeito para conversarem a sós.

- O que você quer? Eu não tenho tempo pra isso!

- Soube que Carlos estava na sua casa ontem…

- E daí? O que você tem a ver com isso?

- O que ele foi fazer na sua casa, Lúcia?

- Isso não é da sua conta Roberto!

- Vocês…?

Os olhos de Roberto estavam fixos nos dela, suas mãos firmes se apoiavam na parede deixando seus corpos rentes um no outro.

- O que isso te interessa, Roberto?

- Eu preciso saber…

Ela pôde sentir o corpo dele se aproximar enquanto ele sussurrava em seu ouvido, arrepiando cada centímetro do seu corpo.

- Se você...

Lúcia podia sentir a respiração ofegante dele em seu pescoço enquanto o coração batia mais forte.

- Não sente mais nada por mim...

As pernas de Lúcia estavam trêmulas, o corpo aquecia a cada segundo e o coração batia tão rápido que parecia que iria explodir. As mãos de Beto deslizavam pelo seu rosto, alisando-lhe os cabelos, suas bocas estavam tão próximas que podia sentir o gosto do seu beijo. Ela tentava desviar o olhar, mas acabava se perdendo naqueles olhos castanhos.

- Me diz…

Ele a apertou ainda mais contra a parede, percorreu a mão até sua coxa, erguendo-a até a cintura, e beijou-lhe ferozmente.

- Eu sou sua alma gêmea, Lúcia. Não ele… eu.

- Roberto…

O coração batia tão forte que parecia que iria saltar do peito a qualquer momento. Mas não queria parar, apenas puxou o rapaz pela gola da camisa enquanto sentia o toque firme de suas mãos em sua cintura.

- O que estão fazendo aí? Vão já para a aula!

O monitor da escola evitava olhá-los diretamente enquanto eles se ajeitavam constrangidos.

- Dessa vez eu deixarei passar, mas na próxima… vão direto para a diretoria!

Não eram o primeiro casal flagrado na escola, muito menos o último, mas Lúcia sentia-se envergonhada pela forma como estava envolvida com Roberto. E se o monitor não os tivesse encontrado? Tinha medo do que poderia fazer sozinha com ele, era como se seu corpo não respondesse ao seus comandos.

Assim como o de Carlos, que andava distraído pelo pátio quando Lúcia o alcançou.

- Ei, queria falar com você!

- Agora não, broto…

- Carlos, você não pode ficar fugindo…

- Eu disse agora não!

Ele continuou andando evitando olhar para o chão.

- Ei colega, não sabia que você estudava aqui também!

Carlos mal reconheceu a menina de longos cabelos pretos sem aquele vestido franjado e a neblina branca.

- Oi, você é amiga do Carlos?

Lúcia abriu um enorme sorriso, o deixando envergonhado.

- Ah, então esse é o seu nome! Prazer, meu nome é Maria Rita do Rosário, mas a patota me chama só de Rita.

- Bacana! Eu sou a Lúcia. De onde vocês se conhecem?

- Por aí, manja?

A menina com rosto de boneca parecia ter a cabeça nas nuvens, mas talvez fosse dela que Carlos estivesse falando outra noite, quando viu o fio vermelho pela primeira vez. Embora o rapaz estivesse visivelmente desconfortável com a situação, Lúcia, estava empolgada com a ideia de juntá-los.

- Meu coração é de cigano. Mas o que salva é a minha insensatez...Bandido, bandido corazón. No puedo controlar.

Carlos rapidamente reconheceu a voz por trás da canção de Ney Matogrosso, era a mesma da noite passada.

- Ei, vocês querem cantar com a gente?

Rita apontou para o grupo reunido ao redor do garoto de cabelos cacheados com o violão. Mas antes que Lúcia pudesse abrir a boca, Carlos, rudemente brandou “não” e continuou a andar sem rumo.

- Carlos, o que aconteceu? Por que falou daquele jeito com a Rita?

Lúcia corria para tentar acompanhar os passos largos do rapaz.

- Me deixa em paz, Lúcia!

- Que isso, nunca te vi assim...É por causa da menina que você viu?

Aquelas palavras queimaram-no por dentro e ele a encarou irritado, mas não tinha forças para respondê-la.

- Qual o problema com ela, afinal? Não é bonita o bastante? Ou ela é, sei lá, hippie?

- Você não sabe do que está falando! Sacou? Agora me deixe em paz!

A menina apenas ficou parada observando o amigo desaparecer entre os adolescentes, tinha certeza de que havia algo a mais nessa história.

Já era tarde da noite quando, Carlos, estava sentado em frente a sua casa fumando o segundo maço de cigarro, seus cabelos estavam bagunçados e a mochila da escola estava jogada em um canto qualquer.

- Carlos, não é? Está tudo bem?

Era a segunda vez que Maria Rita o entrara naquele estado. Seu sorriso era gentil e as franjas de sua saia lhe davam a aparência de uma fada.

- Está tão na cara assim?

- Está!

Ela tentou segurar a risada.

- Qual o problema, colega?

- Nada… você não entenderia.

- Ei, tudo bem! Você não precisa me contar... Quer vir comigo até a praça? A patota está toda lá, acho que você precisa se divertir um pouco!

- Vou ter que te dar o cano. Tô meio na fossa, mora?

- Mais um motivo pra você vir!

A menina o puxou pelo braço mais uma vez, tinha esquecido como ela era forte. Chegando lá o ritmo era outro, os jovens cantavam alegremente com seus cigarros acesos na mão, a fumaça característica pairava sob suas cabeças enquanto riam de si mesmos.

Havia mais gente dessa vez e o rapaz estava relutante em se aproximar da roda de amigos, mas Rita não lhe dera escolha. Os jovens olhavam curiosos para o rapaz alto que a menina arrastava pelo braço, alguns já o conheciam e outros gostariam de conhecer.

- Está de namorado novo, Rita?

Não dava para saber de onde vinha aquela voz grossa.

- Tá de bode, colega? Sabe que não sou careta!

Disse enquanto colocava seu braço ao redor dos ombros de uma loira qualquer.

- Quem é bicho grilês, aí?

- O que você falou, chapa?

Carlos, com os punhos cerrados, encarou o garoto à sua direita.

- Ei, pega leve, bicho! O cara é batuta!

Disse o rapaz de cabelos cacheados que vira outra noite.

- Não deixe eles te intimidar, não, moro?

Carlos apenas acenou que sim com a cabeça, sentia o corpo todo paralisado e parecia que o ar lhe faltava em seus pulmões. Seu primeiro instinto era correr para longe dali, mas não conseguia se mover. Aquele sorriso lhe atingira como um tiro, fazendo seu coração acelerar. Não podia ficar perto dele, no entanto, por que continuava se aproximando? Por que não conseguia simplesmente ignorar aquela voz angelical que lhe chamava para a roda? Suas mãos suavam frio a cada passo que dava em direção ao rapaz com o violão.

Eles cantaram lado a lado por horas, que passaram como minutos, estava completamente hipnotizado por aquele sorriso. Então, suas mãos se tocaram levemente e Carlos sentiu o corpo estremecer, nunca sentiu aquilo antes. Seus olhos estavam fixos um no outro enquanto seus corpos se aproximavam, João Carlos sentia que o coração iria explodir, o que ele estava fazendo?

- Eu nem sei o seu nome…

Soltou sem querer.

- Antônio, me chamo Antônio.

Disse o rapaz de cachos cor caramelo se aproximando ainda mais.

De repente, o cantar de pneus ecoou pelo quarteirão, o tempo pareceu desacelerar aquele instante.

- Corram!

Gritou alguém. Carlos se levantou num pulo e sem saber o que estava acontecendo começou a correr de volta para casa enquanto gritos de terror invadiam seus ouvidos. Virou para trás de relance e Antônio estava logo atrás dele.

- Não deixem que fujam!

Os berros do comandante eram abafados pelos sons de tiros que vinham de todos os lados.

- Carlos!

Lúcia berrava aos prantos não muito longe dali enquanto Pedro tentava contê-la em seus braços. Mas quando João Carlos virou para trás,instantaneamente, perdeu o fôlego. Suas pernas bambearam, o fazendo cair de joelhos no chão e podia jurar que seu coração parou por uma fração de segundo. Antônio havia sido baleado a poucos metros de distância e uma grande mancha de sangue se formava em sua camisa enquanto os soldados corriam para arrastá-lo para dentro do camburão.

Lúcia e Pedro, sem pensarem duas vezes, correram no meio do tiroteio e arrastaram o amigo para trás da banca de jornais do seu José, onde se esconderam nas sombras. Mas não havia nada a ser feito. Carlos perdera o amor de sua vida, sentia-se impotente e destruído. Tudo o que lhe restou foi observar o fio vermelho perder o brilho e se perder na escuridão em 12 de Junho de 1976.



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