Já ouviu falar em heterônimos? Sim, não? Pois bem, antes de irmos mais a fundo com esse assunto vamos esclarecer algumas palavras que se confundem, tá bom?! Bora lá então!

Pseudônimo

É um nome adotado, que não o seu. Ou seja um nome fictício, mas a pessoa não deixa de ser quem é, não muda suas características, personalidades e nem mesmo sua maneira de escrita, no caso de escritores.

Pseudônimos são muito utilizado por autores, músicos, artistas... famosos, algumas vezes autores se utilizam de um pseudônimo para validar se suas criações e/ou obras são prestigiadas pelo fato de serem obras primas, ou meramente pelo fato de possuirem seu verdadeiro nome no título (na capa).

exemplo de escritores que criaram pseudônimos:

  • Richard Bachman, pseudônimo de Stephen King.
  • Robert Galbraith,  pseudônimo de J. K. Rowling.
  • Mary Westmacott, pseudônimo de Agatha Christie
Ortônimo

É quando um autor assina a obra com seu próprio nome, mas pode variar nas particularidades estilísticas da escrita. Nomenclatura utilizada para autores que possuem pseudônimos e heterônimos em sua carreira, ou seja possuem outras assinaturas.

Semi-Heterônimo

É um nome, uma pessoa, mas não possui uma personalidade muito particular ou uma manifestação artística muito diferente de seu autor original, apresentando muita semelhaça com seu autor.

Heterônimo

É um nome, uma pessoa, característica, personalidade, formação, estilo de vida e vivência totalmente únicas e distintas do seu "real autor". Além de possuir obras e estilo de escrita próprios publicados.

Pode ser estranho a primeira vista, no entanto, vejamos as possibilidade de uso e a magia que um heterônimo pode proporcionar na vida de um(a) escritor(a).

Para tangênciar a minha explicação utilizarei o exemplo do maior criador de heterônimos, o famoso e consagrado Fernando Pessoa, poeta do modernismo português que viveu de 1888 à 1935.

Durante sua trajetória Pessoa criou diversos heterônimos, ao todo são 74 reconhecidos, mas pesquisas mais recentes apontam para 127. Independente da quantidade, 3 se destacam entre os mais famosos por demonstrarem sua tamanha genialidade, até mesmo para Fernando Pessoa, são eles:

Álvaro de Campos

Nasceu dia 15 de outubro de 1890 em Tavira, sul de Portugal.

Estudou Engenharia mecânica e naval em Glasgow, Escócia, no entanto não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em um escritório. Descrito por Fernando Pessoa como sendo alto 1,75m, magro, cabelo liso, entre branco e moreno e usava monóculo.

Foi o único dos heterônimos que durante sua obra manifestou 3 diferentes fases poéticas, sendo elas decadentista, futurista e niilista ou intimismo.

Fase decadentista: o poeta relata o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações.

Fase futurista: o poeta celebra o triunfo das máquinas e da civilização moderna.

Fase intimista: o poeta cita a solidão, negação a tudo, nostalgia da infância, a estranheza e perplexidade.

Trecho do poema Opiário (decadentista)

(...)Esta vida de bordo há-de matar-me.

São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,

já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral

Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,

Onda onde o pundonor é uma descida

E os próprios gozos gânglios do meu mal(...)

Trecho do poema Ode Triunfal (futurista)

“À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica  

Tenho febre e escrevo.  

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,  

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!(...)”

Trecho do poema Tabacaria (intimista)

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.(...)

Ricardo Reis

Nasceu  no dia 19 de setembro de 1887 em Porto, Portugal. Estudou em colégio jesuíta e formou-se em medicina. Descrito por Fernando Pessoa como sendo baixo, forte e pele moreno mate.

Era monarca e exilou-se no Brasil, em 1919, por discordar da Proclamação da República Portuguesa. Foi profundo admirador da cultura clássica, tendo estudado latim, grego e mitologia.

Trecho do poema Temo, Lídia, o destino. Nada é certo (intimista)

Temo, Lídia, o destino. Nada é certo.

Em qualquer hora pode suceder-nos

O que nos tudo mude.

Fora do conhecido é estranho o passo

Que próprio damos. Graves numes guardam

As lindas do que é uso.

Não somos deuses; cegos, receemos,

E a parca dada vida anteponhamos

À novidade, abismo

Alberto Caeiro

Nasceu em Lisboa no dia 16 de abril de 1889. Órfão de pai e de mãe, só teve instrução primária e viveu quase toda a vida no campo, sob a proteção de uma tia avó.

Descrito por Fernando Pessoa como estatura média, loiro, olhos azuis e não escrevia bem português. Morre em 1915 por tuberculose.

Trecho do poema O mundo não se fez para pensarmos nele (futurista)

(...)Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem por que ama, nem o que é amar...(...)

Como é possível notar os heterônimos de Fernando Pessoa, possuem características e histórias próprias, características não só presentes em suas biografias, mas também é de se notar essa forte presença em seus poemas, deixando claro a diferença entre eles.

E você deve estar se perguntando, por que esse tema? Qual o sentido? Esse tema é pelo simples fato de exigir e existir muita capacidade criativa e exercício de escrita envolvido.

E qual o benefício de criar heterônimos para escrever contos, poemas, textos...? Criar um heterônimo irá força-lo(a) a se desassociar das suas linhas de pensamento, na maneira como vê o mundo, das suas personalidades, das suas crenças, das suas convicções, da escolha das palavras, a forma e a característica da sua escrita, irá fazer com que você busque o conhecimento de maneiras diferentes, com pontos de vista diferentes.... Tudo isso fará você sair completamente da sua zona de conforto, pelo simples fato de você não ser você.

Mas como criar um heterônimo? Não existe uma receita de bolo para isso, uma maneira correta ou  errada, a criação de um heterônimo pode vir de diversas fontes, podemos citar algumas opções que podem inspirar vocês:

  • Comece por com uma vontade interna oculta
  • Oposição de pensamentos as suas crenças
  • Sexo oposto
  • Ideal de pessoa
  • Construir um heterônimo a  partir de um personagem de algum conto ou história que você como escritor(a) criou e admira.
  • Níveis de classe social / educação / formação diferentes
  • Diferentes épocas, séculos...
  • ...

Independente de qual seja sua fonte de inspiração para criar seu heterônimo, para ser considerado um, é necessário que possua:

  • Nome próprio
  • Biografia própria
  • Obra própria
  • Estilo de escrita próprio

E aí o que achou desse tema? Já tentou criar um heterônimo? Comente com a gente!