A lenda de Trismegisto está repleta de mistério e imersa em mitologias, de maneira que, muito do que se sabe, se trata de visões distorcidas de quem este Grande Mestre foi e representa. As antigas escrituras e relatos que sobreviveram à História, contam que ele, referido desde o princípio pelo nome Hermes, foi um poderoso faraó do Egito, tendo vivido num período de aproximadamente 2.400 anos antes da Era Comum. Sendo uma alma antiga e já havendo passado por diversas reencarnações, com suas práticas de Elevação Espiritual (ou Peregrinação Luminosa), Hermes atingiu um grau de compreensão universal que lhe deu acesso ao domínio de um conjunto de energias, e conforme seu poder crescia, seu povo começou a desenhá-lo à semelhança de uma figura divina, nomeando-o, em determinado momento, como Toth (ou, em algumas versões, Tehuti). Quando Hermes recebeu a Verdadeira Iluminação, ele abandonou seu posto de Governante e abandonou sua terra natal, deixando pouco mais do que alguns ensinamentos registrados formalmente em obras – mais tarde tidas como sagradas –, abrindo então espaço para outras dinastias que posteriormente reinariam no Egito. Logo após seu “desaparecimento”, seus seguidores instauraram um culto em seu nome (que à princípio iniciou-se na capital egípcia da época, mas que rapidamente se espalhou por toda a nação), atribuindo à sua imagem divinizada o símbolo da lógica do Universo e o título de “escriba e mensageiro dos deuses”, caracterizando-o comumente, entre outros aspectos, com uma cabeça de íbis – que na verdade era o pássaro que Hermes tinha como animal de estimação.

E então a Roda do Tempo rolou, dinastias faraônicas do Egito caíram e foram substituídas por outras, e os conhecimentos mágicos de Toth foram diluindo-se e ganhando novas roupagens, colidindo, finalmente, com outras culturas. Sendo incorporado pelo povo Helênico, uma nova versão de Toth nasceu (ou renasceu) como o deus grego Hermes, visto igualmente como o portador de conhecimentos secretos e como o mensageiro divino, envolto em sua própria mitologia e com uma nova personalidade. Quando o Império Romano iniciou sua ascensão, basicamente absorvendo as tradições gregas, foi preciso um passo muito curto para que o Hermes, filho de Zeus, se torna-se Mercúrio, filho de Júpiter, e, em paralelo a tudo isso, a Alquimia desabrochava na Macedônia, resgatando os ensinamentos do Grande Mestre que agora passava a ser vinculado à imagem de três divindades distintas, fato que deu origem ao nome Trismegisto (do latim, Trismegistus, ou “três vezes grande”) – ensinamentos os quais fizeram surgir a filosofia hermética, que buscava traduzir a compreensão universal, resultando, ao somar-se com outras filosofias antigas que culminavam na Arábia e Oriente, na Alquimia, a primeira Ciência e portanto a precursora das demais, as quais englobava, como a Química, Biologia, Medicina, Matemática, Física, Semiótica, e muitas outras.

É praticamente unânime que a Alquimia, em seu formato tradicionalmente conhecido, tenha se consolidado a partir do século III a.C., na época das conquistas e expansões territoriais macedônicas, guiadas por Alexandre Magno, sendo o ápice da continuidade de um estudo e visão semeados 2100 anos antes. Mas, para que se compreenda a razão da espera de dois milênios para que este ápice fosse alcançado, é preciso um olhar à história secreta da Ordem Herdeiros de Trismegisto: quando Hermes, o Faraó, deixou para trás seu status de monarca, ele vagou por centenas de anos, disseminando os conhecimentos universais que havia adquirido – que em diversas culturas foram manipulados e receberam outras formas –, e realizando pequenos milagres e feitos, que infelizmente foram atribuídos à outros personagens messiânicos ou simplesmente apagados pelo passar do tempo. Em sua jornada, o Grande Mestre tomou três discípulos, irmãos trigêmeos os quais resgatara de uma cabana em chamas certa vez. As três crianças, encantadas com sua figura, juraram servi-lo e com ele aprenderam a Sagrada Arte da Magia, e tudo foi bom por um longo período, porém, eventualmente, Hermes percebeu que sua presença no Plano Físico estava gradualmente quebrando com o Equilíbrio Universal, e que na mesma medida que seu poder puro e bondoso existia, um poder corruptível e maligno se formava, afundando parte da humanidade pouco a pouco na Escuridão. Foi nesse momento que ele decidiu fazer a Última Passagem, enclausurando-se no Templo do Conhecimento guardado pelo dragão Poimandres, no centro do Reino Astral, com a esperança de que o mal crescente igualmente recuasse. Antes de partir para o outro Plano, o Mestre dos Mestres graduou seus três seguidores, nomeando-os a Tripla Legião Luminosa e legando-os a missão de proteger o mundo, e os irmãos agiram muito bem em seus primeiros anos. Mas a decrepitude da idade aos poucos os alcançou, pois a matéria com qual eles eram feitos não era a mesma da de Hermes, e contra esta força que é o Tempo eles não poderiam sair vitoriosos. Com a suposta paz trazida pela ausência de seu mestre, o Trio de Grandes encontrou uma alternativa que prolongaria sua vida sem perturbar o Equilíbrio, e assim os andarilhos solitários engendraram pelos caminhos da Suprema Iluminação, refazendo, de acordo com seus limites, os passos de seu mentor, que os conduziu às primeiras camadas do Plano Astral, de onde poderiam manter-se vigilantes sobre os acontecimentos que se desenrolavam no mundo físico, no qual conseguiram preservar seus corpos e para o qual prometeram retornar em momentos de necessidade. Quando o Rei macedônio iniciou sua campanha, com a jura de conquistar todo o globo, subjugando cada povo, nação por nação, a energia conflituosa das guerras que se iniciaram sob o seu nome e desejo finalmente despertou os Três Grandes Aprendizes de seu sono mágico, fazendo-os retornar depois de quase um milênio absorvendo os conhecimentos presentes no Labirinto das Consciências. E qual não foi sua surpresa ao verificarem as formas vis como o Mal havia escapado à sua atenta visão, apenas aguardando a oportunidade nas incessantes batalhas e massacres que se perpetravam simultaneamente pelos continentes, para mostrar-se em toda sua profana majestosidade. Pela primeira vez, a Tripla Legião Luminosa soube que, se quisessem sua sagrada missão concluída, precisariam ao seu lado realmente uma legião, e nesse momento, tendo recrutado em meio às prateleiras de pergaminhos da opulenta Biblioteca de Alexandria o seu primeiro membro, nasceu a Ordem Herdeiros de Trismegisto, acompanhando nas sombras o surgimento oficial da Alquimia.

Ao lado da Ordem guerreira – que provou-se essencial à humanidade –, tal como uma bela e fértil moçoila, a Alquimia passou a exibir-se, tomando formas à medida que crescia, atraindo cada vez mais pretendentes apaixonados que por ela se interessavam. E, como a Ciência Materna, naturalmente a Alquimia fez nascer muitos filhos, sendo obrigada, igualmente à uma mãe a, mais tarde, vê-los abandonando-a à sua maneira primordial e constituindo-se como unidades, ou neste caso, áreas específicas de saber, se desvinculando à ideia central da filosofia hermética, de “trazer Luz ao Mundo”. Afetados pela Mente Coletiva, ou tendo acesso a informações sobre os Herdeiros, em algumas décadas várias outras organizações começaram a eclodir pelo mundo, algumas com propósitos semelhantes, outras nem tanto; fato este que por si só desencadeou um evento que repetiu a ruptura da maioria das Ciências para com a Alquimia, dividindo o pensamento dos alquimistas herméticos e originando diversas vertentes e subprodutos da Verdade Inicial legada por Trismegisto.

Em meio à este cenário pululante em pautas e agendas foi que o Ocultismo floresceu, significando não somente o “estudo do Oculto”, mas tendo o princípio de que “algumas verdades deveriam manter-se secretas e fora de acesso às pessoas comuns” – uma necessidade que, quase de forma absoluta, os legítimos praticantes da Sagrada Arte (que foi descoberta das mais diferentes maneiras) chegaram à conclusão de ser imperativa.