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Toda semana um novo Mini para você.

Balanço
Terror

I.

Sempre tive o hábito de me sentar em minha cadeira de balanço, na minha varanda, e observar o mundo.
E todos que por ali passavam me cumprimentavam. "Bom dia", "Boa Tarde", "Boa noite", "Bênça, pai", "Bênça, vô".

II.

No vai e vem de minha cadeira, vi muitos chegando e mais ainda se despedindo.
Vi o mundo mudando. Me vi envelhecendo.
Hoje em dia, as pessoas não me cumprimentam mais. Ignoram-me. Viram o rosto.

III.

Esta geração é estranha, sem educação.
E assim passam esses hábitos para seus filhos.
Outro dia, escutei alguém dizer a uma criança inocente, que chegou perto de mim e da minha cadeira, palavras que ainda não entendi.

IV.

"Não chegue perto desta cadeira! Já falamos que ela é assombrada! Olha ali! Agora mesmo, o fantasma do falecido vovô deve estar se balançando nela!"

V.

O Roubo
Drama

I.

Senti quando me apalparam os bolsos, e sem saber quem era, virei-me bruscamente, buscando em alguma direção encontrar o responsável, que me subtraíra o ouro e a prata. Em vão, não encontrei sequer resquícios, mas além disso, alguns pelos brancos se sobressaíram em meio ao emaranhado de minha barba e cabelos.

II.

“- Ladrão!” – assim bradei.
Os guardas logo se prontificaram a buscar pelo meliante, mas também sem sucesso, quando então senti tocar-me novamente, e logo um punhado de conhecidos, amigos e familiares, desapareceram. Seria um sequestrador? Pensei comigo.

III.

Mas antes que entendesse tudo que se passava, fui tomado pelo cansaço e enfraquecido, roubaram-me também a vitalidade.
Por fim, caída ao chão, notei uma velha ampulheta e logo compreendi, o ladrão era o tempo.

IV.

V.

Penumbra

I.

Acordei de sobressalto, ainda era madrugada.

Olhei em volta e só vi a penumbra que preenchia todo o quarto. Meu corpo estremecia em um calafrio constante. Senti-me observado. Olhava para o teto, queria me virar, mas temia deixar minhas costas vulneráveis.

II.

Não havia ninguém. Pensei em ver as horas, mas o medo me paralisava.

Até tinha sede, mas nem para alcançar o copo d'água não tive coragem.

Pensei em rezar contrariando meu ateísmo, mas não o fiz.

III.

Busquei, então, pensar em coisas tolas, mas algo me fazia companhia. Sua presença me era perceptível.

Por fim consegui pegar no sono novamente.

IV.

Quando acordei de manhã, um alívio invadiu meu espírito.

Levantei com uma energia que nem parecia minha. Isso até ver o copo d'água intocado por mim, agora jazia vazio sobre o criado-mudo.

V.

Não tem certeza de qual ler primeiro?

Vamos olhar todo o catálogo de mini contos da Bilbbo e trazer um que seja a sua cara!

Ler meu Mini!
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Adolfo
Suspense

I.

Nem os olhos roxos conseguiam retirar o sorriso simpático, enquanto ela oferecia seus biscoitinhos para toda a delegacia.

O delegado chamou-a em sua sala.

- Dona Nina, conte novamente seu incidente, por favor.

II.

- Pois bem. Dos maridos que tive, Adolfo até foi um dos bons, mas se fosse contrariado, era em mim que descontava sua frustração.

- Sempre foi ou hoje foi a gota d'água?

- Ele era bem previsível, sabe? Mas aí...

III.

- Mas aí...?

Um brilho no olhar daquela senhora ligou o alerta na cabeça dele.

- Não admito palavrão em minha casa, senhor. Ele me chamou de puta! Enfiei minha melhor faca nas costas dele.

Dona Nina sorriu.

IV.

Ele recebeu uma mensagem no celular: "Achamos mais 'coisas' na casa da senhora."

- Aceita outro biscoitinho enquanto lhe conto minha sina de viúva?

V.

Alfredo
Suspense

I.

Calma, Dona Nina falava com o delegado, enquanto este devorava seu biscoitinho.

- Alfredo foi meu primeiro marido. Desatento ao extremo. Passei os primeiros anos me devotando a ele.

No celular do delegado, mensagens surgiam.

II.

"Ela tem um porão! Parece o asilo de 'Jogos Mortais'. Quem mais morava com eles?"

Doce, ela falava:

- Aí, você tem uma iluminação. Ele me trocava pelos amigos e o futebol. - Que espécie de homem faz isso? Um dia, passei as roupas dele e preparei o café.

III.

- Até pão quente com manteiga fiz. Mal-humorado, não disse nem bom dia ou muito obrigado. Comeu em silêncio, o traste! Sequer sentiu o gosto do veneno de rato.

Em silêncio, o delegado olhou o biscoitinho mordido.

IV.

- Não se preocupe. O senhor parece dar a atenção necessária a uma mulher.

Disse ela sorrindo.

V.

Alberto
Suspense

I.

"Estou aguardando a análise de um objeto suspeito.", dizia a mensagem.

- Dona Nina, pelo que eu percebi, não houve nenhum marido que não….

- Me aborreceu? Ela sorriu.

- Ah, bem, teve o Alberto. Tocava violão e cantava para mim.

II.

- Adorava Ritchie…"Menina veneno, você tem um jeito doce de ser…"

- Outro marido com A?!

- E tem algo errado nisso, senhor?

- Não, inclusive, meu nome é Adriano. 

- Mas o mundo é pequeno demais!

III.

- Aceite mais um biscoito, sim?
Ofereceu, deliciada.

- E o que houve com o Alberto?

- Oh! Meu querido Alberto faleceu.Era alguns anos mais velho do que eu. Câncer no pâncreas; não havia o que fazer! Quase fui à falência para salvá-lo. 

IV.

“Confirmamos que o abajur é feito de carne humana.”, estava na mensagem.

- Mas ainda bem que salvei uma parte dele que vela meu sono todas as noites...

V.

Aquino
Suspense

I.

O delegado, educado, falava:
- A escrivã foi fazer um café. Aceita?
 
-Por que não?
Dona Nina sorriu.

-Aquino, meu outro marido, bebia muito, para curar as ressacas. Eu perdoava o alcoolismo. Não satisfeito, ele me traiu com uma sirigaita qualquer.

II.

- Por causa dele, quase fiz algo que me arrependi. Com o encanador. Um rapaz bonito. E eu era mais jovem.

- Ele me beijava perto da pia. Me fazia sentir coisas, sensações. Quando eu lembrei que era casada, acertei a cabeça dele com a chave de grifo.

III.

- Aquino chegou bêbado e cheirando perfume barato. 'Estava cuidando de minhas coisas, megera!', ele disse.

- A culpa foi dele. Quase virei uma adúltera. Por isso, acertei-o com a mesma chave de grifo.

IV.

- Os dois adubam meu jardim até hoje.

No celular, surgiu a mensagem:
"Há dois esqueletos no jardim."

V.

Alcides
Suspense

I.

Os biscoitinhos tinham acabado. Dona Nina parecia uma avó contemplando seu neto. O delegado estava empanturrado. Tentou se justificar:

- Parei de fumar há pouco tempo, então, estou substituindo o cigarro pelo doce. Mas estavam realmente bons!

II.

- Entendo. Meu Alcides tentou muitas vezes largar esse vício também. Fez de tudo um pouco, e começou a engordar, mas não de uma forma boa. Ele comia um bolo inteiro se eu deixasse, sabe?

- E imagino que a senhora ficou escrava do fogão?

III.

- Fiquei, mas não por muito tempo. Piscou.

Sem mensagens. Bom sinal?

- Não precisei fazer muito. Ele morreu intoxicado com uma fornada de biscoitinhos, exatamente como essa.

IV.

- Usei meu ingrediente secreto... Pó de Maridos.

Gargalhou. 

O delegado só teve tempo de chegar ao corredor. Outros desavisados estavam no mesmo estado.

V.

Adriano
Suspense

I.

Alguns meses depois...

- Sabia que viria me visitar.
Disse dona Nina, na área de visitas da Prisão.

Adriano sentou-se ao lado dela:
- Tinha de vir. Tenho uma pergunta. A senhora poderia permanecer ilesa. Por que ir à delegacia? Por que se entregar?

II.

O sorriso no rosto, a senhora disse:
- Não. Eu não me entreguei. De que adiantaria fazer o que fiz, sem contar a ninguém. Não tenho filhos e o senhor me pareceu o mais próximo a um neto.

- Peraí! Não se arrependeu?

III.

- Todos os meus maridos foram homens terríveis. Ninguém vê isso. Quem era o monstro, afinal?

- Mesmo com o que acharam em sua casa, a senhora ainda conseguirá sair por causa de sua idade.

- O advogado foi muito bom. Lembrou meu finado Astrogildo.

IV.

- A senhora teve um marido advogado?

- Se tiver tempo, posso continuar contando minha sina de viúva.

V.

Terror
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Aconchego
Terror

I.

Após a separação, Miguel tinha como companhia apenas sua gata Fifi. Ela adorava deitar-se na ponta da cama. Ele aproveitava para fazer carinho nela com os dedos do pé e aquecê-los durante os dias frios.

II.

Uma noite, ele acordou suando frio. O peito parecia comprimido, faltava ar e o coração estourava de dor e medo. Entretanto, o volume familiar de Fifi na ponta de seus dedos o reconfortou. Adorava sentir o pelo macio dela. A forma do corpo se delineando sob seu pé.

III.

Enquanto mexia na gata e se acalmava, algo peludo acertou-o no rosto. O coração disparou outra vez. Miguel olhou para o lado e viu Fifi dormindo ali. O rabo abanava devagar enquanto ela sonhava. Ronronava baixinho, alheia a todo o resto.

IV.

Até o grito de Miguel.

V.

Balanço
Terror

I.

Sempre tive o hábito de me sentar em minha cadeira de balanço, na minha varanda, e observar o mundo.
E todos que por ali passavam me cumprimentavam. "Bom dia", "Boa Tarde", "Boa noite", "Bênça, pai", "Bênça, vô".

II.

No vai e vem de minha cadeira, vi muitos chegando e mais ainda se despedindo.
Vi o mundo mudando. Me vi envelhecendo.
Hoje em dia, as pessoas não me cumprimentam mais. Ignoram-me. Viram o rosto.

III.

Esta geração é estranha, sem educação.
E assim passam esses hábitos para seus filhos.
Outro dia, escutei alguém dizer a uma criança inocente, que chegou perto de mim e da minha cadeira, palavras que ainda não entendi.

IV.

"Não chegue perto desta cadeira! Já falamos que ela é assombrada! Olha ali! Agora mesmo, o fantasma do falecido vovô deve estar se balançando nela!"

V.

Cantiga
Terror

I.

Larry, Larry, Larry o espantalho

Todos dizem que passava
o dia inteiro pendurado
por um cabo de vassoura,
no campo do Seu Fábio.

Destruído pelo tempo,
já não tinha mais um lado.
E redondo em sua barriga,
já se via um buraco.

II.

Ainda nessa história,
Havia Billy Delgado
O filho do fazendeiro
e que era muito mal criado.

Todo dia, depois da escola,
o rapaz voltava irritado
e, sempre, depois da colheita,

ele amassava Larry com o arado.

III.

No Halloween, no entanto,
depois de uma festa do condado,
Billy resolveu voltar sozinho
e entrou no campo para um atalho.

Larry, vendo a oportunidade,
desceu de seu lugar com cuidado.
E pela manhã, Billy havia sumido
e Larry tinha um novo braço.

IV.

V.

Aos Últimos
Terror

I.

Aos que restarem.

***

Ela faz esse trabalho há muito tempo, mas só é requisitada em ocasiões especiais. Ela não sente nenhum prazer em seu trabalho, e em coisa alguma. Apenas o faz.

II.

Para os trabalhos cotidianos, existem subalternos. Esses sim sentem prazer, e a invejam.

Mas essa é uma ocasião especial. Mais uma vez ela veste seu manto, tecido especialmente para ela por seres mais antigos que o tempo.

III.

Coloca sua majestosa coroa de fumaça negra, forjada com falsas almas de profetas e religiosos. Sua coroa chora e se lamenta eternamente.

Lentamente pega sua foice. Sentindo o cabo feito de tripas e ossos secos, se lembra das vezes que a usou. Confia absolutamente na lâmina.

IV.

Ela é a melhor naquilo que faz.

Ela está chegando.

V.

Posto
Terror

I.

Madrugada.

O carro do casal seguia pela pista chuvosa, até um som estranho interromper a viagem.

O carro quebrara. Celulares sem bateria, para ajudar. No caminho, apenas um posto de gasolina.

II.

Pararam no lugar que descobriram fechado. Ao longe, viram um vigia encapotado.

Por mais que tentassem, não conseguiam se aproximar do homem ou aparição.

Amedrontados e cansados, trancaram-se no carro.

III.

De repente, batidas na janela.
O encapuzado, com uma lanterna em mãos, perguntava se poderia ajudar.

Abriu o capô do carro, consertou o defeito. Abasteceu o carro deles de graça e aconselhou-os a tomar mais cuidado nas viagens em estradas chuvosas.

IV.

O casal, mais tranquilo, seguiu viagem, agradecidos àquela boa alma.

Tempos depois, descobriram que nunca houve um vigia noturno naquele posto.

V.

O Predador
Terror

I.

Marcos era professor em uma escola pública. Com seus olhos verdes e um charme fatal, fez com que discursos imorais fossem encarados como brincadeira. Entre risos, na sala dos professores, falou sobre o corpo de uma aluna e como era difícil frear seus “instintos masculinos” perto dela.

II.

Agia como se fosse um predador. As fofocas que corriam sobre a castidade de Ana, a professora de Ensino Religioso, atiçaram-no.

Após muita insistência, conseguiu convencê-la a sair em um encontro.

III.

Aparentemente bêbada, ela o levou para seu apartamento. Arrastou Marcos para o quarto, puxou algemas de dentro de uma gaveta e, com um sorriso lascivo, o prendeu na cama.

— Não sabia que você era assim — Marcos disse num sussurro.

IV.

— Todos temos nossos demônios.

Se Marcos não estivesse pensando em como contaria sobre aquela noite para os colegas, teria percebido o círculo no chão e velas formando uma figura.

V.

Ana saiu do quarto e trancou a porta. Houve apenas um grito abafado e o som de sangue jorrando. O demônio de que falara era real e precisava se alimentar".

Drama
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Esfíngico
Drama

I.

Desde criança tinha curiosidade em conhecer o baú secreto do senhor Wilson, um velho sábio que parecia saber de todas as coisas. Sempre ouvi dizer que se descobríssemos o que havia ali conseguiríamos finalmente descobrir o segredo que nos mantém vivos.

II.

Mas nunca ninguém conseguiu entrar naquela sala amarela onde ele ficava guardado pois o ancião não permitia que ninguém se aproximasse.

III.

Até que numa quarta-feira chuvosa enquanto Wilson preparava um café consegui aquilo que sempre foi tão ábdito, entrei na sala e rapidamente abri aquela grande caixa de madeira rústica, retirei um papel e li:

IV.

“Quando você descobrir o segredo que o mantém vivo não terá mais razão para continuar vivo. Não tenha pressa, nem medo e não busque sentido, viver já é a melhor descoberta que poderia fazer!”

V.

Fábrica
Drama

I.

- Perdemos mais um. Na mineração.

- O quê?

- Perdemos mais um. Na fundição.

- Porra! na fundição ou na mineração?

II.

- Fundição e mineração... só um minuto...e mais quatro na explosão de uma caldeira. Acabou de acontecer.

- Merda! Esses putos querem acabar com minha empresa! com minha família! com o meu dinheiro! estão morrendo aos montes! isso é um absurdo! que gente incompetente! não duram mais que três meses! sempre morrendo!

III.

- O senhor deveria investir em robôs. São indestrutíveis...

- Você sabe quanto custa um robô? um absurdo! absurdo!

IV.

- Prefiro aproveitar o fato dos robôs terem acabado com direitos trabalhistas, trabalham por migalhas, não geram custo...

- Quantos morreram esse mês?

- Nessa unidade, 70.

V.

- Peça outra carga de imigrantes. 
E seja breve. Tempo é dinheiro.

O Roubo
Drama

I.

Senti quando me apalparam os bolsos, e sem saber quem era, virei-me bruscamente, buscando em alguma direção encontrar o responsável, que me subtraíra o ouro e a prata. Em vão, não encontrei sequer resquícios, mas além disso, alguns pelos brancos se sobressaíram em meio ao emaranhado de minha barba e cabelos.

II.

“- Ladrão!” – assim bradei.
Os guardas logo se prontificaram a buscar pelo meliante, mas também sem sucesso, quando então senti tocar-me novamente, e logo um punhado de conhecidos, amigos e familiares, desapareceram. Seria um sequestrador? Pensei comigo.

III.

Mas antes que entendesse tudo que se passava, fui tomado pelo cansaço e enfraquecido, roubaram-me também a vitalidade.
Por fim, caída ao chão, notei uma velha ampulheta e logo compreendi, o ladrão era o tempo.

IV.

V.

Bom dia
Drama

I.

A minha rotina era sempre a mesma, todos os dias por volta das 06:00 acordava com a minha esposa sussurrando no meu ouvido. Lembro-me bem daquela doce voz dizendo:

- Bom dia, meu amor.

II.

Isso de fato alegrava o meu dia.

Mas um dia em especial eu jamais irei esquecer, era um domingo chuvoso, acordei com a sua mão passando em minhas costas e senti seu rosto chegando próximo ao meu ouvido, logo ouvi aquela voz tentando me acordar, mas comoeu havia trabalhado até tarde na noite passada, apenas me virei e voltei a dormir.

III.

Quando acordei, já não havia ninguém na minha cama, então me levantei e peguei o celular para checar as horas, era 12:15 em um 4 de Novembro.

Nesse instante, a única coisa que pude lembrar, é que naquele dia fazia exatos 2 anos da sua morte

IV.

V.

Fuga
Drama

I.

Embolar as roupas, enfiá-las na mala, apenas o essencial, sim, o suficiente para viver só, apartado de qualquer opressão, o necessário para dias de frio e calor, uma bebida quente para atravessar a modorra, um livro para atiçar o tédio, de preferência com figuras, pois ainda não lê bem, mas decidiu-se; quer fazer aquilo que lhe apeteça.

II.

Ora, a vida é pra ser vivida, desfrutada já que finita!

Contra a mutilação dos instintos protestava planejando fuga, criança dona do próprio nariz, assim se via até a mãe, batendo pé sob o beiral, braços em xícara, exclamar indiferente a pena daquela partida, pois jazia no forno um bolo.

III.

Desconfiou o blefe, não nascera ontem, mas é inconfundível o cheiro de açúcar queimado com canela.

Tá bom mãe, amanhã eu fujo pra valer.

IV.

V.

Conchas
Drama

I.

Entre a areia da praia e o horizonte, há um mundão d’água pra mergulhar.

Fico aqui sentada, desenhando coisas com um graveto, imaginando quando o mar vai apagar. Um coração, meu nome e o nome de alguém.

II.

Não importa mais; o mar apaga.
O mar leva e não volta mais.

Meus olhos se fixam onde a linha divisa o resto do mundo.

“Será que consigo nadar até lá...?
Seria um esforço inútil, já que sei que não vou te encontrar.”

III.

Pensando em tudo e em nada, nem noto que a tarde chega e a noite cai.

Um vento frio me envolve e percebo que é a solidão quem me abraça, calma, mas com mãos enormes.

IV.

Um arrepio me eriça os pelos e não tenho mais medo - te reconheço.

Um gosto de lágrima me chega aos lábios, engulo em seco, e me despeço de ti.

V.

Suspense
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Inigualável
Suspense

I.

A primeira vez que lhe vi foi em um café perto do meu prédio. Cruzamos olhares, você sorriu, pediu licença, e então eu soube que nunca mais poderia te deixar ir.

Depois disso, te achei nas redes sociais e nos encontramos ainda quatro vezes pela cidade. Eu me vi aprendendo cada charme e hábito seu, rindo de seu humor rápido e inteligente.

II.

Saiba, eu acho que você é a pessoa mais incrível do mundo. Forte e complemente única.

Fiquei muito feliz quando em nosso quinto encontro, reuni coragem e te acompanhei da parada de ônibus até sua casa.

III.

Hoje, depois de um mês, percebi que você esqueceu as chaves no portão de entrada. Mas não se preocupe, eu já as peguei.

IV.

Agora mal posso esperar para finalmente nos conhecermos em pessoa.

V.

Ajudinha!
Suspense

I.

Quando os conheci eles tocavam para meia dúzia de bêbados em um bar.

Hoje em dia ninguém mais quer saber de rock n’ roll ou blues. Uma pena. Mas lá estavam, bastante empolgados, sonhando em ganhar um mundo, que na verdade, nunca daria ouvido para eles.

II.

Os garotos eram bons. Bons de verdade. Hoje em dia isso também é difícil. Atualmente o que importa não é mais importante. Sempre fiz o meu trabalho com um sorriso no rosto. Mas com esses rapazes… Com eles foi ainda mais prazeroso.

III.

Vê-los agora, tocando para 30 mil pessoas, não é algo que me surpreende.
Sim, eu sou muito bom no que faço. Tenho bastante noção disso. E acredite em mim, meu amigo. O que eu cobrei deles na época, é o mesmo que posso cobrar de você.

IV.

E então, quer viver o resto da vida sendo um nada?

O que me diz?

É um bom preço pela sua alma…

V.

Acidentes
Suspense

I.

Quando eu ainda era um garotinho, desejei muito ter um bichinho de estimação, e que fosse só meu.     Minha mãe, como qualquer mãe, me advertiu sobre a responsabilidade e permitiu que eu tivesse. Ela sabia que eu cuidaria muito bem dele.

II.

Meu irmão, parecia não se importar com o fato de ter um animalzinho em casa, mas sempre que ele ficava a sós com meu bichinho, um "acidente" acontecia. Minha mãe, para evitar um confronto direto, me presenteava com outro. Quantos peixinhos, passarinhos e hamsters eu tive! E todos eles "acidentados".

III.

Então, veio meu primeiro cachorrinho;   o vira-lata mais esperto do mundo. Minha mãe sabia o quanto eu queria.  E eu sabia que não demoraria muito, e meu irmão ficaria sozinho com ele.

Decidi então ser prático: meu irmão sofreu um "acidente". Ele se foi, e meu cachorrinho ficou.

IV.

Vivi muito feliz com ele! E posso dizer que minha mãe também. Bom, ela nunca me disse o contrário, e nem ousou.

V.

Enforcado
Suspense

I.

Fico parado observando o homem andar reclinado até o patíbulo, quase curvado até o chão, como se o peso de seus pecados o empurrasse para baixo.

A multidão grita, vaiando o condenado, enquanto o juiz lê seus crimes. Invasão. Roubo. Assassinato.

II.

Me mexo com desconforto e encaro o culpado de frente, relembrando da última vez que havia visto minha esposa, antes de a terem encontrado em meio uma poça de sangue. O homem me encara de volta e um pouco de luta parece voltar aos seus olhos.

Tarde demais.

III.

O chão se abre e a platéia reage com alegria enquanto suas pernas balançam no ar. Eu desvio o olhare espero o espetáculo terminar. Alguém aperta meu ombro e afirma que devo estar aliviado.

E eu realmente estou.

IV.

Agora sem a única testemunha, poderei herdar o dinheiro sem problema. E nunca mais vou ter que aturar aquela mulher novamente.

V.

Festa
Suspense

I.

O homem saiu da festa para o jardim, meio bêbado. Precisava respirar um pouco. Atrás de si a música ainda tocava alta e as pessoas riam.

Foi somente quando se encostou na parede que notou que não estava sozinho. Uma mulher esguia estava lá, fumando cigarro.

II.

-Vim respirar um pouco.
Ela concordou, sem desviar os olhos da paisagem. Da penthouse dava para ver a cidade acesa e as estrelas.
-Como está lá dentro?
-Animado.
Ele se aproximou e a morena lhe ofereceu o cigarro. O homem aceitou e deu uma tragada.

III.

-Quando acha que vai acontecer?
Ela deu os ombros.
-É melhor não saber, eu acho.
-Verdade.
Ficaram em silêncio ao que uma risada alta e o barulho de algo se quebrando os fez rir.
Ele devolveu o cigarro.

IV.

Foi quando o céu começou a ficar vermelho e um vento quente os atingiu em cheio.
A mulher deu uma longa tragada e jogou a bituca no chão, apagando-a com a ponta do salto.
-Não deveria estar com a família?
-Eu não tenho ninguém.

V.

Ambos olharam um para o outro e se deram as mãos pouco antes do cometa atingir a Terra.
E a festa finalmente acabou.

Isolamento
Suspense

I.

Ruas vazias. Comércio local fechado. Silêncio.

Mesmo sendo mais recluso, não estava preparado para aquele isolamento.

Recorria ao celular, mas as notícias e opiniões divergiam, e não havia nenhuma mensagem significante.

II.

Não era “frescura”: de livros e séries, ele estava muito bem, os exercícios latejavam seus músculos e a casa estava tão limpa que virou compulsão.

Aqueles dias já estavam afetando seu psicológico cada vez mais.

III.

Cadê os vizinhos? As crianças?
Cadê todo mundo? A ansiedade bateu.
Estaria ficando…?

TOC-TOC.

Rapidamente, abriu a porta.

IV.

- Oi, Ivã. Desculpe vir assim sem avisar, mas... sabe como é? Esse isolamento está me deixando meio maluca...

- Que bom que veio! Entre, Bianca! Quer fazer alguma coisa?

-Conversar!....E um café, também.

V.

Romance
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Carnaval
Romance

I.

Juraram amor eterno ao se verem, entre um trio e outro.

Não perderam tempo trocando desnecessários nomes.

Paixão avassaladora.

II.

Durou quatro dias, cinco abadás, sete trios elétricos, oito motéis, nove becos, dezenas  de fantasias, inumeráveis e indecifráveis bebidas e nenhum preservativo.

Depois da quarta, cinzas e quaresma.

III.

IV.

V.

Boêmio
Romance

I.

A noite cai na grande cidade. Pessoas caminham apressadas para chegarem as suas casas, mas o boêmio não

Ele é amigo da lua, amante da madrugada. Ele versa com aquilo que ninguém percebe, as estrelas.

II.

O boêmio acorda tarde e se prepara para à noite. Ele é um ser intocável sentimentalmente.

Mas o boêmio não contava em se apaixonar.

Amanda é uma menina alegre, 25 anos e com um tesão pela vida que encanta a todos.

III.

O boêmio, numa bela noite de lua cheia no alto do céu, viu o brilho da Amanda e a confundiu com aquilo que o inspirava.

Não era nenhuma estrela, era a menina de seus olhos encantados. O boêmio tentou fugir, dizer não quando queira dizer sim.

IV.

E como um raio, Amanda passou e o boêmio com as pernas bambas ficou e reação não teve. A menina se foi. E hoje o boêmio chora, tendo sua amiga lua por testemunha, guardando na memória a noite em que um anjo tocou seu coração.

V.

Agora ele rabisca nos guardanapos dos bares versos de tristeza, aguardando o dia em sua musa aparecerá novamente.

Apolo
Romance

I.

Onde vc está?
Sé. Longe... Vc?
Ainda esperando o busão
Meodeos...
Que foi?
Tem um deus grego aqui
No seu vagão?

II.

Na minha frente
Com sua sorte, só pode ser Hefesto
Não! É Apolo
Certeza? Vc nunca foi boa em mitologia grega
Apolo em toda sua glória
Manda foto
Como?

III.

Finge que tá mexendo em alguma coisa e tira, ué. Discretamente
Tá.

30 minutos depois.

Alice? Ta aí? Td bem?
Vc me paga!
?

IV.

Disparou o flash, paguei o maior mico da minha vida
HSHUASHHAUHSUA
Vc ri? Fiquei com tanta vergonha que saí do metrô, entrei no que estava do outro lado da plataforma e me perdi. Agora estou num ônibus que passa perto de cas.. meodeos!
O que?

V.

Ta vindo pra cá

Apolo acabou de entrar no ônibus
Não!!!!

30 minutos depois.

Alice? Kd vc? O que tá acontecendo?
Conto depois. Não da pra tirar foto agora S2 S2

Sonhadora
Romance

I.

Emilly cresceu ouvindo contos de fadas, ainda morava com os pais, fazia só tarefas domésticas, se preparando para um príncipe.

Ensaiava seu casamento e usava sempre longos vestidos.

II.

Um dia finalmente conheceu Vitor, que também procurava um relacionamento sério, pelo menos um sério, porque queria continuar com outros mais divertidos.

Daí ela finalmente percebeu que ninguém viria salvá-la!

III.

Ela precisava sair do “castelo”, matar seus próprios monstros, parar de depender de beijos e príncipes encantados, tirar aqueles vestidos “bregas” e mostrar que ela era dona de todo poder que buscava nos outros.

IV.

Hoje mora em um trailer turístico e ganha dinheiro levando pessoas a conhecerem lugares que inspiraram castelos de princesas. Conheceu Paulo e vivem cada dia como se fosse o último.

V.

A Promessa
Romance

I.

Não foi um dia muito fácil, a dor da perda o perseguia em cada passo que dava.

Lá no fundo sentia que poderia ter feito algo diferente, sei lá, se tivesse segurado com mais força, talvez não a tivesse perdido.

II.

Agora era tarde. O maior clichê da vida é a morte, quando ela chega vemos o que deveria ter sido dito e não foi.

Mas ele não iria embora dali, não sem ela, afinal, fizeram uma promessa de ficarem juntos. Esperaria o quanto fosse preciso na mesma poltrona em que morreu, até ela poder deixar a casa com ele e partirem juntos.

III.

IV.

V.

Camila
Romance

I.

Deslizo a mão em seus cabelos grisalhos. Há tanta coisa para contar, sabe? Desde o dia que te conheci, quando de forma inusitada, te atropelei com a minha bike… 



II.

Nossa primeira dança no baile de formatura, nosso primeiro beijo lá na casa dos seus pais…

Depois disso, trabalhando, alugamos uma casinha e vivemos momentos maravilhosos; parecíamos duas crianças brincando sem nunca cansar.

III.

Sofri junto com você no nascimento do nosso primeiro filho, mas deu tudo certo. Aprendi, com muitos erros, a decifrar cada expressão e sentimentos teus. Não fomos para Paris ou Nova York, mas descobrimos muito do nosso Nordeste.

IV.

Hoje, por ironia do destino, você não se lembra mais de mim, nem dos nossos inúmeros momentos juntos.

V.

Mesmo assim, amanhã irei te contar tudo de novo, como se fosse a primeira vez.

SciFi
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Café
Sci-Fi

I.

Chegou na calçada, me olhou, entregou a carta e saiu cantarolando, correndo pela rua. A menina parecia assustada.

Bem, quem é que entrega cartas hoje em dia? Abri o envelope.

II.

As letras mais bizarras que eu já vi... Pareciam códigos de computador, escritos com uma tinta escura e mal cheirosa.

Lembrei da água no fogo, voltei às pressas pra passar o café. Terminando, sentei no sofá e adormeci.

III.

A campainha tocou, me acordando. Tive que atender uma menina estranha no portão.

Abri a porta. Vento gelado e silêncio total. A criança me entregou um envelope e saiu.

IV.

Abri e li: "você está preso num loop".

Criança louca...Dei risada, voltei pra dentro pra terminar de passar o café...

V.

O Levantar
Sci-Fi

I.

É muito difícil descrever em palavras o que eu vi. Conforme seu corpo, ou melhor, sua forma se levantava, tudo ao redor foi sumindo, como se aquela existência ocupasse toda a importância de meus olhos. Pensei em levar as mãos aos olhos e cobri-los, mas algo me dizia que o ato seria inútil.

II.

A cena já estava tatuada em minha mente, e nunca mais serei capaz de apagá-la. Aquela visão me trouxe até aqui, Doutor.

Espero que suas ferramentas e conhecimentos sejam capazes de remover essas loucuras de minha cabeça.

III.

IV.

V.

Testemunha
Sci-Fi

I.

Foi em um encontro na Lapa, quando Marcos nos chamou para revelar sua ausência nos últimos sete anos.

- Sei que é difícil de acreditar, mas há sete anos, fui abduzido. Há alienígenas entre nós!

II.

Todos riram, como era de se esperar. Ele tentou nos mostrar as filmagens em seu celular, mas ninguém deu muita bola.

Marcos parecia estar mais nervoso do que antes.

III.

Rafael, tocou seu ombro para acalmá-lo, mas isso pareceu incomodá-lo ao ponto de sacar uma arma, apontar e ….

IV.

Tudo acontece rápido demais. Até onde a paranoia pode levar o ser humano? O que aconteceu de verdade com Marcos para chegar a esse ponto?

Volto minha atenção para Rafael, seu corpo estirado na calçada, escorrendo sangue verde e sua fisionomia se tornando lentamente menos humana.

V.

Urbanos
Sci-Fi

I.

Em dias de tempestade, raios e trovões, um grupo estranho pega seu barco e navega silencioso pelos esgotos mal cheirosos.

Chegam aos canais, alcançam as valas e ganham as ruas. Com o auxílio da noite, camuflados por suas enormes capas, diluem-se em meio a tantos rostos estranhos que enfrentam o mau tempo.

II.

Ninguém se olha. Ninguém percebe os olhos amarelos. Pobres humanos, nem deram conta do que os atingiu.

Arrastados para os bueiros são devorados nas obscuras galerias de um metrô abandonado. Seus gritos são abafados pelo barulho ensurdecedor da passagem do trem sobre os trilhos.

III.

Assim os homens crocodilo alvejam os incautos pelas ruas desertas e limpam os rastros com seus enormes rabos esverdeados.

IV.

Na próxima tormenta fiquem espertos. Não saiam sozinhos. Desconfiem dos enormes sobretudos.

V.

40/40
Sci-Fi

I.

Em 2119 alcançamos o ápice tecnológico, mas milhões morrem sem água. Cientistas buscam transformar água

do mar em chuva.

- Vou explicar uma última vez, jogamos o Dobrador de Portais Quântico no mar, ele cria uma fresta no espaço tempo sugando e evaporando a água salgada.

II.

A fresta reabre a 2km de altura, libera o vapor sugado e cria a maior nuvem de chuva vista.

- Mas você falou em alguns

imprevistos nos testes?

III.

- O teste do copo d’água funcionou, só erramos os cálculos, a fresta apareceu horas antes do teste ter início, o estagiário já corrigiu os cálculos. Lance logo o DPQ no mar.

- DPQ lançado.

IV.

O DPQ toca o solo, uma fresta suga e evapora quilômetros de água, a 2km de altura a fresta libera o vapor, nasce uma tempestade. O lugar está certo o tempo errado... chove 40 dias e 40 noites.

V.

O Sol
Sci-Fi

I.

"Mais uma vez o sol aparece para iluminar a terra. Sua luz atravessa
o espaço e nos guia em mais um dia, em mais uma rotina. Metrô completamente lotado, ônibus tombado, trânsito
em todas as avenidas.

II.

Esta mesma luz ilumina o caminho até o trabalho, e revela seu chefe estressado, pessoas com mau humor e mais trabalho.

Na hora do almoço? A luminância mostra o seu lanche rápido, seu fast food e sua dieta indo por água abaixo.

III.

De repente, mortes, estupros, roubos
em plena luz do dia. Ao entardecer, mais brutalidade, assassinatos, sequestros e omissão. A humanidade faz tudo nos holofotes do grande astro Sol.

IV.

Tenho pena do Sol e digo mais, se eu fosse ele, não voltaria nunca mais para iluminar a humanidade."

V.

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